terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O Pêndulo e a Pipa

Somos homens quando pouco,
Mas quando muito somos outras coisas;
Uns são rede, outros porta.
Alguns de nós somos fogueiras.


Outro dia conheci uma cama elástica.


O meu pai sempre me disse
Pra eu ser o que quiser.
Como um louco ou como um santo,
Ser uma coisa qualquer.


Quis ser Pêndulo.


Permaneço acordado
E enlaço os passos do mundo
Que todo permanece mudo
Ao fundo de meu balanço.


Demarco em tuas vidas
Tuas sinas e tuas glórias
Da esquerda pra direita
Pra esquerda


Pra direita.


Inabalável ao badalar das quatro horas;
Sou de madeira robusta
E balanço apenas por mim mesmo
Dentro do meu próprio peso.


Eu peso.


A vida é hierárquica
E quis ser Pêndulo
Pois acima de mim
Somente o próprio tempo.


A vida é passageira
Mas quis ser Pêndulo
Pois o tempo não acaba
E carrega-me consigo.


Ou carrego-te?


Imortal, enfim.


Quis ser Pêndulo também
Pra não estagnar: balanço.
Da direita pra esquerda
Pra direita


Pra esquerda.


Mas, um dia,
Olhei pro céu e vi uma pipa.
Ela também balançava
Quase na mesma velocidade
Da minha rotina
Mas desbicava,
Do verbo universal:
Desbicar.


Distante.


De que me adianta, penso,
Sendo Pêndulo,
Ser imortal,
Se vivo em um caixão?


E da hierarquia, nobre Pipa
Espertíssima,
Acima dela: nada.


E da estagnação,
Para a pipa.


Apenas não.
A Pipa, lisa,
Não controla os passos de ninguém
E nem sequer liga para passos
Pois não coloca os pés no chão.


Frágil, sim.
Mas quase que igualmente intocável,
A não ser por outra Pipa.


Quando um Pêndulo vê uma Pipa
Os olhares sincronizam,
Já notou?


Mas é apenas internet.


Leve-me consigo, Pipa!
Posso tentar ser mais leve.
Me leve.
Para novamente balançar
Em seu céu.