segunda-feira, 11 de junho de 2018

O Agiota

Quanto custa?
Um revólver calibre 38,
um tapete persa,
e o salário de um capataz?
E quanto custa a sua paz?
Quanto vale
a casa na cidade
na idade de casar
e quanto vale
a de madeira
na montanha
atrás do vale?
Avalia
e me diga
quanto vale.
Aquela guitarra em rosewood
com tarraxas cromadas
somadas aos captadores Gibson,
quanto me custou?
E por ela
num lá menor dedilhado,
doce, ardido e salgado,
amargo,
armado,
leve e pesado,
por quanto posso cobrar?
Um copo de Whisky do bom
ou uma garrafa do ruim
longe ou perto de mim,
de quanto falamos, enfim?
O carro do ano
com bancos em couro,
um luxo espetacular
em cada uma de suas lindas multas
de seus delicados impostos
e do seu venenoso combustível
indescritível – 40 litros de whisky bom! -
e nele, o som de um blues choroso
que eu baixei de graça na internet.
Quanto custa?
E a passagem do trem
aumentou para quanto?
Dentro dele,
engaiolado,
sinto um ar de plástico,
tão condicionado quanto eu.
E por ele eu pago,
sem me perguntar quanto me custa.
Mas quanto custa?
O veneno e a cura,
o ringue, a luva, a luta?
quanto custa um passeio na Augusta
ou um churrasco de ponta?
E quem vai pagar essa conta?
Quanto custa cada pergunta?
E dentre elas,
a questão que toda noite
fortemente me invade,
despertando-me em alarde:
Dentro dessa cela justa
somando o custo das nossas mentiras
e deles as verdades,
qual é o preço da liberdade?

domingo, 13 de maio de 2018

Desafiado

Desafinado
e persistente,
rasgo os dedos
nas cordas de aço
da guitarra
que sangra
os acordes
que me têm.

Afiado
e reticente,
tanto que
meus próprios dentes
serram minha boca
que sangra
o silêncio
que convém.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Apneia

Sempre que estou subindo a escada,
saindo do túnel
junto com o resto do rebanho
me falta ar
e o peito, um pouco,
para de funcionar.

A fotofobia arde
e nos ouvidos
o som das ambulancias e do caos
não são absolvidos
pela felicidade vespetina
dos moradores da rua
comemorando que o frio da madrugada acabou.
Tenho gostado menos do frio,
porque quando penso nisso
me falta ar,
ou quando sinto o cheiro cinza
das falsas árvores de plástico
que compõe a premiada arborização
estendida na avenida,
nas calçadas,
como a vida dos invisíveis
que apenas o respiram.

Falta-me ar
quando vejo que estou
entre milhões de solitários,
quando numa esquina cheia de ninguéns
penso que serei assaltado.

Tem me faltado ar ultimaente,
até mesmo antes de subir a escada,
no transporte,
na estação,
na rua da minha casa,
no portão,
no café,
na noite.

Talvez meu pulmão esteja quebrado
mas, esforçado,
gasta meu pouco de tudo
ou talvez eu esteja apenas fora:
de forma,
de norma,
de mundo.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Insônia

A gente sempre pressente
quando ela estará presente
ou conscientemente sabe
naquela palavra não dita,
no abraço não recebido,
no gosto de nostalgia do que não vivemos
que fica na boca no fim do domingo.

A gente sabe quando ela está vindo,
junto com a noite cheia de vazio,
pra fazer companhia às ideias perdidas
que pairam no superego
e conversam com a alma.

Vem pra fazer parte da festa,
junta-se a mim, a vitrola e as correntes
e os sons da garganta presos nos dentes.

A festa está chata
porque o whisky acabou,
mas ela fica, inconveniente,
entre o barulho dos gatos na janela
e o medo do lobo na porta,
como um vaga-lume cheio de luz própria
que não trabalha durante o dia
ou como nós,
com todos os planos queimando
no fogo do que a gente adia.

Estás comigo há meia vida,
minha companhia mais próxima e antiga,
às vezes me adormece com um beijo
perto do canto da boca,
perto do sol raiar
e me deseja “boa semana”.

sábado, 17 de março de 2018

Requiém aos Requiéns

Josiel tinha amigo bandido vagabundo porque cresceu na polo industrial do crime, onde o negócio de família normalmente passa de pai pra filho. Mas o pai de Josiel não morreu bandido vagabundo, morreu carteiro. Então Josiel não cresceu bandido vagabundo, cresceu otário.

Um dia, Josiel estava com os amigos bandidos vagabundos e a polícia chegou metralhando. Os alvos eram dois ou três bandidos vagabundos que haviam metralhado policiais uma semana antes. Esses bandidos vagabundos morreram. E Josiel também morreu. Bem feito Josiel, ninguém mandou ter amigo bandido vagabundo.

Marielle não metralhou ninguém, mas tocou na ferida da polícia que metralhou bandido vagabundo que metralhou polícia que metralhou Josiel que não metralhou ninguém. A polícia metralhou Marielle.

Meu vizinho disse: Bem feito! ninguém mandou defender bandido vagabundo que metralha polícia.

E o vizinho do meu vizinho disse: É, precisamos de mais armas, precisamos nos armar.

E o vizinho do vizinho do meu vizinho disse: Até os dentes.

Parece que uma vida que não vale o que a minha vida vale, não vale nada. E quem define o valor das vidas sou eu.