quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Coletor

Nos cacos maiores tento tenaz,
mas os menores se desfazem
na vastidão de um universo que inventei.

Neste, vou atrás,
pelas ruas caminhando.
Chove.

Dos cacos, quase pó, cato como um catador profissional,
com a mão gasta, o pé imundo, o peito ferido
e um carrinho cheio de todas as coisas do mundo.

Coleto a cada passo um pouco do que vejo,
quase sempre lixo,
mas as vezes bons ensejos,
mesmo os que não servem pra ninguém.

Junto luzes e sombras,
espelho,
gaiola,
cadarço,
estetoscópio e abajur.

Coleto dores,
horrores,
cores,
flores,
e amores;
E coleto também coletores,
outros tantos como eu.

Pego os medos,
as vinganças,
os sorrisos de criança,
os pecados,
as unhas cortadas,
o amanhã
e algo mais.

Apanho o que sobrar,
furtivo e sorrateiro,
nada pode passar.

Apanho por apanhar
e por tal apanho da vida
por apanhar o que apanho.

Sou acumulador
clínico, patológico,
doente.

Tem coisas - você me ensinou -
que devemos relevar,
descartar,
deixar pro vento,
deixar pro mar.

Vou tentar, prometo.

Não suporto mais 
um coração sem espaço 
por causa do espaço 
que em algum espaço 
eu peguei.