domingo, 26 de abril de 2015

Encontro

Estaria quase pronto
para ir te buscar
não fosse o banho de tua alma
que eu ainda não tomei
ou a roupa dos teus sonhos
que eu ainda não vesti.

Ultrapassado

O passado de hoje em dia
não é mais como
o passado do passado.
O passado se perdeu.
No passado, o passado
era parte do meu dia
e hoje em dia
o passado é só o passado,
hoje em dia,
o dia é realmente meu.

sábado, 25 de abril de 2015

A Anti-Poesia do Amor Platônico

Esta não é uma poesia.

Não é, pois não consigo a escrever.

Há um verso latente,
que se esconde
sob as luzes negras do meu ser.

Mas não é este.

Nem este não é.

Sei que existe a poesia
aqui em mim ou em você,
mas sei também
que não é isto
que agora lê.

Em minha mente
sinto muito, tanto quanto minto,
omito o que a mente sente
transformando esse verso latente
em um pequeno rabisco de mito.

Temo meu cantarolar
e tenho tanto pra dizer,
só que não digo,
não consigo,
não encontro o jeito certo de o fazer.

Não é mútuo o sentimento seco a ter por mim o verso branco,
velho conhecido
que todo amor
mal correspondido requer.
Por muito eu busco a rima,
com amor em demasia
e veja só que ironia:
a poesia não me quer.

Quarta-feira


De todos os dias que existem
sou sempre a quarta-feira:
longe do sábado próximo
e de domingo passado também.

De todos os dias que existem
sou sempre a quarta-feira
pois das outras quartas-feiras todas
mais distante que eu, não têm.

Crime

Religiosos e políticos. Filósofos e cientistas. Prendam-me! Sim, não por menos, cometi um crime na ordem de todos vocês: eu clonei. E clonei sem qualquer licença para clonar. Clonei sem querer, tudo bem, mas clonei. E sobre o que tanto os senhores discutem a respeito desta arte profana, sei que cometi um crime demasiado pecaminoso. Enfim, explico-me: havia um monte grande de areia embaixo, uma escada quase que para o céu e um espaço plano em cima. A missão era transportar todos aqueles grãos para o espaço nas alturas. Pois bem, coloquei-me a fazê-la. Depois de alguma quantidade de horas, notei que o monte que se formava em cima crescia, o que me alegrara consideravelmente, posto que quanto mais o acontecesse, mais próximo de concluir a missão eu ficaria. Estava um sol de bagunçar as ideias sobre minha cabeça e os levantes de areia pareciam ficar a cada viagem mais pesados... Foi quando em algum momento notei que a areia que lá em cima já estava, continuava a aumentar seu volume, mas a fonte de toda a areia lá embaixo permanecia igual. Sempre igual. Desde o momento em que comecei a jornada. E nessa leva se seguiram os paradigmas até o instante em que os dois montes de areia eram iguais. Insisto, prendam-me! Sob o Sol da metade do dia, senhores, eu clonei areia.

Veterano

Não busco mais vagar
pela magia nos olhares e nos horizontes.
Hoje sou um homem sem planos,
não que ontem os tivesse aos montes.
Peço desculpas por este verso branco
Confesso, estranho o confuso,
desculpa por não ver o mundo,
desculpa por não ver avante.
Sei, pareço vazio de tudo
e de tudo pareço distante
pois na noite, céu negro à diante
há sangue nas mãos por instantes
que sempre se repetem, cortantes.
Sou, portanto,
pouco mais que um homem sem planos
ou menos, dependendo de tuas fontes:
Sou soldado,
combatente veterano,
insistente,
que um dia guerreou
em múltiplos frontes.

Gerações

Vocês nunca serão o que nós somos.
Nós nunca seremos o que vocês são.
Nós nunca seremos o que nós fomos.

Gerações. Gerações. Geração.

O Verbo

Transbordamos-nos o tempo todo
tanto quanto nos cabe de ar
passamos a vida cantando as horas,
passamos a vida a transbordar.

Se tens em ti parte de um todo
que me pertence em seu lugar
é que outrora me transbordara
de minha mente para o seu lar.

E dessa rima, mesmo que pobre
exprimo o verso que lhe trará:
quero que saibas que em todo canto
estás em mim, estás pra cá

Pois transbordara como se fosse
parte do encanto do meu sonhar
e quando um sonho se torna verbo
é muito fácil o eternizar.

Sobre os Olhos

No olhar
mato a sombra
e trago as sobras
de um sonho
memorável.
Há um princípio de refúgio,
há uma luz no fim de um túnel
camuflado.
Na face,
estampo as sondas.
As dúvidas e as ondas
balançam-me 
diante do impasse.
A onda 
leva-me,
lava-me,
flutua-me,
flutua em mim
e em mim situa
tua ronda
em minha rua
onde atua 
tua Lua
nua.
E meu mundo,
muda,
sonha,
gira
e acaba
mudo.

Deixando O Futuro Pra Trás

Deixo o trem que me carrega
e carrego um trem de medos
sobre minhas costas nuas.

Volto pra casa com a chuva
que escorre minha pele,
derramando um pouco
do meu sonho pelas ruas.

O sinal se fecha
mas o olhar, turvo,
não enxerga outra calçada,
não enxerga o fim da estrada
e não enxerga o futuro que acua.

Mas enquanto ando
ouço a voz mais pura,
que me permite
enxergar a lua, apenas a lua.

Visto minha pele escorrida
largo qualquer coisa na mochila
e sigo o som, e sigo o céu, e sigo a vida

que em mim debrua.