sábado, 19 de setembro de 2015

Coisas Fora do Lugar

A vida tem sentido:
vai pra frente
inconsequente e assustadora.
Tenho a sentido,
e em sua epítome mais pura
és a doença e também és a cura
do que se consome e se colore
as horas vãs dos meus dias de folga.
As desventuras desvendam as coisas fora do lugar
nos nossos templos, nos nossos termos, nos nossos tempos de calma
a alma, clara, rara, que se cede
à um canto que se perde
na voz rouca pela tosse,
o peito cheio em paz e guerra
na penumbra noturnal que nunca 
cessa, 
às vezes nem ao raiar do dia.
Retrato da batalha interna, intenta
sonhos vívidos debaixo da luz do sol.
O violão de cordas novas eterniza acordes loucos
e faz com que o músico acorde, louco,
ou talvez durma.
Pó na calçada batendo meu portão,
tocando minha campainha,
pedinte seco para entrar.
Varro.
Não suporto coisas fora do lugar.
As desventuras às desvendam
o tempo todo nos meus dias
e eu corro contra o fim das férias
pra que tudo fique certo
pra que ao fim da tarde
eu sente, esperto,
e suspire satisfeito
por ter deixado tudo em ordem.
Por enquanto, apenas labuta.
Clamo para o fim das desventuras
que permutam e rodeiam os meus dias.
E eu ainda quero aquela calma,
quero lavar a alma
e talvez varrer,
pois como você já deve saber,
não suporto as coisas fora do lugar.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Repouso e a Batalha

“Tente ser diferente”, dizem eles;
“Tente algo novo, tente algo urgente”.
Então aqui estou, caro leitor
tão forçado quanto você que me lê.
Mandaram-me pra cá, cá estou
como insistentemente pode me ver.
Não quero ser diferente, novo, urgente.
Mandaram-me pra cá, cá estou, mas vamos combinar...
Não quero estupefartelhar-te com a inoção do pós-contemporâneo;
quero aquele velho colapso momentâneo
que as obras padrão nos trouxeram.
Mas como não consigo, assim, sendo honesto,
chegue cá, vamos conversar:
Como foi seu dia?
Me indaga o mesmo?
Pois bem, queimar tempo e caloria
num gole de whiskey.
E o calor ria.

domingo, 7 de junho de 2015

Voraz Veroz

O que buscamos, hoje sei, é a voracidade do tempo: quando o coração descompassado nos faz desoxigenar a lógica, perder a física, flutuar pelo céu sobre mundano que há em nós. Quando o pensamento descompensado nos invadir um mundo sem gravidade. Buscamos aquele ponto em que 10 horas viram 10 minutos. Buscamos não perceber que a barba cresceu falhada por sobre as cicatrizes; chegar na manhã seguinte como se não tivéssemos atravessado a noite. Às vezes – estranho – buscamos viver dois invernos e nenhum verão. Nesse ponto, ponteiros nem existem, simplesmente. Não é que nos esquecemos deles: eles de fato não existem. E isso é o que buscamos. Queremos em cada suspiro, um caminhão de ar, para que a expiração seja lenta, para que a respiração se perca na imensidão da atmosfera, antes do segundo virar. Buscamos ficar horas sem piscar, para não perdermos nada, como se o víssemos o mundo em slow motion. Buscamos um olhar perdurante, um abraço insistente, uma saudade simplesmente infinita. Infinito... O queremos em absoluto. E a melhor forma que existe para perdermos o medo do fim, é perder a noção do meio, perder a noção do início, perder a noção do tempo. Sim, nos perder na vastidão oceânica da linha do tempo, tênue entre o sonho e o mundo. São esses momentos metafisicamente irreais dos quais nos lembraremos com nosso maior vigor. E quem será capaz de provar que esse paralelismo não existiu? Ninguém.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Estranhos

À beira dos sorrisos que arrisco
arranho sonhos e rabiscos
estranhos à beira de mim.

Por dentro,
devaneios incolores
rebatem as razões e dores,
mas acanho-os,
num dos meus confins.

E em pouco do espelho que formamos
vejo o tanto que de fato somos:
no mundo castanho do não,
estranhos à beira do sim.

sábado, 9 de maio de 2015

Furacão

Veio como um bandido
na surdina,
na calada,
na colina.

Balançou-me como se balança uma pena.
Uma pena.

Como balançava-me quando criança
nos pneus amarrados em árvores
nas redes, nas sedes,
nos medos de escuro.

E como bandido, levara-me embora
um pouco da minha alma,
do meu riso.
Um pouco do meu sonho, também bandido,
de ser escrivão vão maior do que sou.

Roubei-lhe algo também;

E depois,
foi embora
a quilômetros por hora
bagunçando a aurora,
calada,
na colina,
na surdina,
severamente genuína.

Balancei um furacão.

O noticiário aponta
a ponta do tornado
e o vento apronta as malas:
Viras-te cíclico.
Sonho cínico
que ao sul regressará.

Ei,

Se pretendes chegar às 7,
às 6 lá estarei.

Devolver-te-ei.

domingo, 26 de abril de 2015

Encontro

Estaria quase pronto
para ir te buscar
não fosse o banho de tua alma
que eu ainda não tomei
ou a roupa dos teus sonhos
que eu ainda não vesti.

Ultrapassado

O passado de hoje em dia
não é mais como
o passado do passado.
O passado se perdeu.
No passado, o passado
era parte do meu dia
e hoje em dia
o passado é só o passado,
hoje em dia,
o dia é realmente meu.

sábado, 25 de abril de 2015

A Anti-Poesia do Amor Platônico

Esta não é uma poesia.

Não é, pois não consigo a escrever.

Há um verso latente,
que se esconde
sob as luzes negras do meu ser.

Mas não é este.

Nem este não é.

Sei que existe a poesia
aqui em mim ou em você,
mas sei também
que não é isto
que agora lê.

Em minha mente
sinto muito, tanto quanto minto,
omito o que a mente sente
transformando esse verso latente
em um pequeno rabisco de mito.

Temo meu cantarolar
e tenho tanto pra dizer,
só que não digo,
não consigo,
não encontro o jeito certo de o fazer.

Não é mútuo o sentimento seco a ter por mim o verso branco,
velho conhecido
que todo amor
mal correspondido requer.
Por muito eu busco a rima,
com amor em demasia
e veja só que ironia:
a poesia não me quer.

Quarta-feira


De todos os dias que existem
sou sempre a quarta-feira:
longe do sábado próximo
e de domingo passado também.

De todos os dias que existem
sou sempre a quarta-feira
pois das outras quartas-feiras todas
mais distante que eu, não têm.

Crime

Religiosos e políticos. Filósofos e cientistas. Prendam-me! Sim, não por menos, cometi um crime na ordem de todos vocês: eu clonei. E clonei sem qualquer licença para clonar. Clonei sem querer, tudo bem, mas clonei. E sobre o que tanto os senhores discutem a respeito desta arte profana, sei que cometi um crime demasiado pecaminoso. Enfim, explico-me: havia um monte grande de areia embaixo, uma escada quase que para o céu e um espaço plano em cima. A missão era transportar todos aqueles grãos para o espaço nas alturas. Pois bem, coloquei-me a fazê-la. Depois de alguma quantidade de horas, notei que o monte que se formava em cima crescia, o que me alegrara consideravelmente, posto que quanto mais o acontecesse, mais próximo de concluir a missão eu ficaria. Estava um sol de bagunçar as ideias sobre minha cabeça e os levantes de areia pareciam ficar a cada viagem mais pesados... Foi quando em algum momento notei que a areia que lá em cima já estava, continuava a aumentar seu volume, mas a fonte de toda a areia lá embaixo permanecia igual. Sempre igual. Desde o momento em que comecei a jornada. E nessa leva se seguiram os paradigmas até o instante em que os dois montes de areia eram iguais. Insisto, prendam-me! Sob o Sol da metade do dia, senhores, eu clonei areia.

Veterano

Não busco mais vagar
pela magia nos olhares e nos horizontes.
Hoje sou um homem sem planos,
não que ontem os tivesse aos montes.
Peço desculpas por este verso branco
Confesso, estranho o confuso,
desculpa por não ver o mundo,
desculpa por não ver avante.
Sei, pareço vazio de tudo
e de tudo pareço distante
pois na noite, céu negro à diante
há sangue nas mãos por instantes
que sempre se repetem, cortantes.
Sou, portanto,
pouco mais que um homem sem planos
ou menos, dependendo de tuas fontes:
Sou soldado,
combatente veterano,
insistente,
que um dia guerreou
em múltiplos frontes.

Gerações

Vocês nunca serão o que nós somos.
Nós nunca seremos o que vocês são.
Nós nunca seremos o que nós fomos.

Gerações. Gerações. Geração.

O Verbo

Transbordamos-nos o tempo todo
tanto quanto nos cabe de ar
passamos a vida cantando as horas,
passamos a vida a transbordar.

Se tens em ti parte de um todo
que me pertence em seu lugar
é que outrora me transbordara
de minha mente para o seu lar.

E dessa rima, mesmo que pobre
exprimo o verso que lhe trará:
quero que saibas que em todo canto
estás em mim, estás pra cá

Pois transbordara como se fosse
parte do encanto do meu sonhar
e quando um sonho se torna verbo
é muito fácil o eternizar.

Sobre os Olhos

No olhar
mato a sombra
e trago as sobras
de um sonho
memorável.
Há um princípio de refúgio,
há uma luz no fim de um túnel
camuflado.
Na face,
estampo as sondas.
As dúvidas e as ondas
balançam-me 
diante do impasse.
A onda 
leva-me,
lava-me,
flutua-me,
flutua em mim
e em mim situa
tua ronda
em minha rua
onde atua 
tua Lua
nua.
E meu mundo,
muda,
sonha,
gira
e acaba
mudo.

Deixando O Futuro Pra Trás

Deixo o trem que me carrega
e carrego um trem de medos
sobre minhas costas nuas.

Volto pra casa com a chuva
que escorre minha pele,
derramando um pouco
do meu sonho pelas ruas.

O sinal se fecha
mas o olhar, turvo,
não enxerga outra calçada,
não enxerga o fim da estrada
e não enxerga o futuro que acua.

Mas enquanto ando
ouço a voz mais pura,
que me permite
enxergar a lua, apenas a lua.

Visto minha pele escorrida
largo qualquer coisa na mochila
e sigo o som, e sigo o céu, e sigo a vida

que em mim debrua.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Reincidência

E novamente,
espreito o amanhecer
como um que balança a alma
dia após dia
esperando adormecer.

Peço desculpas por clamar
- deliberadamente -
a falha humana reincidente
que destrói
pouco a pouco
o meu ser.


Me perdoe
por torrar as paciências
de qualquer um
que não detenhas
o que sinto,
em sua fé ou sua ciência,
em tudo o que lhe pode ver.


Sinto muito
por conter em mim um monstro
sutilmente feroz
que corrompe um mundo sob minha pele
sem que ninguém possa saber.


Essa,
é mais uma
das minhas noites
de penumbra clara,
de silêncio barulhento,
de vazio lotado
de mim,
cansado,
lento.


Coração,
este meu,
me perdoe
por não dar-te paz.
Mas não vingue-se,
por favor,
apenas bata depressa
e me faça viver.

Já que faz-me acordado
deixe-me envidraçado
de vida e luz
para o dia próximo que vai nascer.


...


Mudo de assunto, sim
pois a noite é longa:
Noutra dessas, também sonhei com o céu
assim como todos sonham, vez ou outra.
Vi flores, vi aves, vi pessoas que há muito não via,
num clichê aberto de paraíso, desses que se vende na TV.
Foi um sonho bom.
Queria levar todos que amo comigo
para este mundo de sonho, sem perigo...
Mas não é sempre que durmo.