quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

,

Olham pra dentro de si,
com fios escapando aos ouvidos
rocando canções de guerra
por entre canhões e gemidos,
deixando esse mundo em pedaços.

Milhares de transeuntes
postos aqui lado a lado
seguindo as leis dos segundos,
com seus corações imundos
deixando esse mundo em pedaços.

Entram em seus universos
pensando que em mãos têm tudo,
mas deixo escapar em meus versos,
que provam á eles o inverso:
em suas mãos não há nada
além da porta de entrada
pra a perturbação social
deixando esse mundo em pedaços.

Parto-me ao ver essa dor
quando parto a partir desse trem
e quebro a lei da inclusão,
a ideia dessa geração,
de que todos têm tudo na mão
quando de fato não têm.
Sou a vírgula que perpetua
a vida dos homens sem laços
querendo partir para a Lua
deixando esse mundo,
em pedaços.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Espelhos

O mundo vive a espelhar
os mares, lares e bares
nos olhares de si.

Cada mundo reflete o outro
como se doutro 
fosse sempre 
o melhor ponto do mundo.

Todo mundo tenta ser espelho
nas almas vazias de cada um,
desapercebendo-se de que
um espelho posto fronte ao outro
não espelha nada.

Por isso sou apenas vidro,
transparente,
original.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Insônia

Diante das memórias
permaneço lasso
ao tempo e a rotina
que desatinam meu cansaço.

A vida me desgasta,
mas não sinto sonolência.

Dentro de mim,
não estou
e quando estou
não sou o que sou,
sou só reminiscência.

Sou o mito que se arrasta pela noite
esperando que essa calma me acoite
pelo medo e pela inocência.

Sentimento adoecido
que desperto à madrugada
para não passar em claro a noite, só,
no escuro do meu quarto e da minha alma.

Diante das memórias, vejo a guerra.
Na janela da história, o medo berra.
Quando sinto a vitória, o sonho erra
e a insônia comemora,
pois na minha cama mora
e me corta como serra.

Não dói mais,
mas o barulho do motor
não me deixa dormir.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Fim dos Tempos

Clamo pelo fim dos tempos,
não como um louco qualquer,
mas como um louco cansado
dos tempos que deitam-me em pé.

Clamo pelo fim dos tempos.
Estes precisam ter fim!
É tempo pra fugir dos outros,
é tempo pra fugir de mim.

Clamo pelo fim dos tempos,
daquele a me conduzir:
o fim do tempo a chegar;
o fim do tempo a partir.

Clamo pelo fim dos tempos
criados no modo humano.
Livro de todo tempo,
livro de todo plano,
pois quanto do tempo houver
teremos do tempo a perder,
perdemos sem evitar
perdemos sem perceber.
Então, peço o fim dos tempos
mas não quero o fim de tudo.
Acabem com o relógio,
mas deixem viver o mundo.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Desencontro

A vida desnorteia os donos
como que brincando
de mentira
e de mal gosto
com os tolos
que às detém.
Nós tentamos,
mas vivemos desencontros
como se, mesmo que prontos,
um ou outro
fosse sempre
na verdade um outrem.
Era noite
e seus olhos pareados,
marejados
espreitavam,
minha passagem ríspida
tão transitória
quanto o corpo que habito
como de fato foi:
Nem me viu,
nem me vem.
Mas a culpa
se esfacela
nas mazelas
dessa lua
se mostrando
de ninguém.