quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Fotofobia

Sempre temerei seus olhos claros, que incansavelmente vasculham por dentro de mim todos os sentimentos que não pretendo demonstrar. Sempre temerei encará-los diretamente, pois quando o faço, me fica a impressão de que toda a soberania desse mirar me arranca algumas verdades que não quero assumir. Sempre terei seu olhar com algum receio: temo seus olhos porque eles me hipnotizam, porque eles me penetram. Temo seus olhos porque eles me engolem! E o mais triste é que os temo, principalmente, porque tudo isso foi muito bom. Tenho, na realidade, profundo medo de me perder na longa estrada iluminada que a claridade dos seus olhos me permitiram atravessar. Sempre temerei seus olhos claros, mesmo vivendo neles as melhores ligeiras viagens da minha vida. Não que eu tenha medo do trajeto, mas sim do destino.

A Moldura


Fantasmas nas fotografias
- um espectro entre os anjos e demônios 
que nos habitam. 

Rostos já não vistos 
como foste em outrora, 
apenas deixam na memória 
um espaço vago, 
a silhueta borrada
que noutros sonhos
e noutras vidas
ainda nos visitam.

As luzes de natal
vagam nas nuances do meu quarto
e permeiam nas paredes
que insistentemente fito.
E na dança de todas as cores
ouço ao fundo a canção das dores
que compus na noite fria
de um inverno 
que não minto.
Pois por fora, veja,
o fervor que sinto
na verdade é frio 
em estranho inferno 
que por dentro omito.

Fantasmas nas fotografias
que mostravam nosso empenho.
Ainda sou a base 
que assegura esse engenho
abraçando o horizonte:
o mar, o céu, o sol e a fonte
cristalina sob a ponte
por onde atravessa 
cada sonho que tenho.

Fantasmas nas fotografias
que hoje não mostram mais ninguém:
você que não está lá 
porque se foi em sua procura
e eu que não apareço
- não porque não mereço -
mas porque sou a moldura.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Blues & Vinho


O solo ecoava, titubeando fortemente por todas as paredes desse quarto. Era mais uma vez o ladrar da minha guitarra no meio da madrugada, tirando aos poucos pedaços de mim e espalhando-os por cada objeto colorido que a pudera ouvir. Sobre a mesa, uma taça. Meio cheia, meio vazia... Vi-me-na.

É quando a música vence o músico: na passagem dos acordes, derrubo-me – mas enquanto taça! - espatifo-me no chão. O barulho estragara a canção, como um furioso rugido da natureza se esfacelando. Espalhei-me em dezenas de pequenos cacos, mas curioso que confesso, dadas as condições achei interessante! Espalhado, me senti quase que onipresente (na premissa de que este pequeno quarto é todo meu mundo). Pude ver-me ali no chão finalmente como dono de todas as coisas que pudera em partes abraçar. E mais: as luzes alegres nas paredes e no teto desse cômodo fizeram-me um céu estrelado - no chão. Brilhei.

Posso estar esparramado, posso estar ali no piso, posso estar em cacos, posso estar imóvel, posso estar calado, posso estar ferrado, mas estou sorrindo. Ainda sinto-me estrelado, ainda sinto-me poeta, ainda sinto-me repleto de algo, mesmo que algo impreciso! E não experimente você tocar em uma estrela de verdade, ou ferirás queimado. E não experimente você pisar no tapete de estrelas que me tornei, ou ferirás cortado. Mas experimente me juntar os cacos, reconciliar as partes... posso não voltar a ser uma taça, posso ser outra coisa que queira.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Clave de Sol

Somos como dois acordes
além da escala bemol
que se impõem em um espaço
maior do que de fato há.

Pois, quando estás em uma música,
sempre penso que és o Sol;
E quando tento lhe cantar
sempre me vejo Lá