domingo, 28 de outubro de 2012

Considerações Finais


Como um latente memorando num espelho,
devolvo-te a imagem que me passas.

Pode ter sido a hora,
pode ter sido a alma,
mas algo está errado.
Vamos regressar.
Vamos nos reaprender,
vamos nos retrair.
Vamos nos re-tra-ir...

Guardo-me
e resguardo o sentimento.
Desculpe-me por confundir-te,
desculpo-me por iludir-me.

Pego minha sacola,
pego minha viola,
pego minha estrada.
Buscando um outro nirvana,
vivendo o novo
de novo e de novo.

Guarde tudo muito bem,
pois esse é o dia em que eu resolvi sumir.
Eu voltarei,
mas não me espere para o jantar.
Se agasalhe bem no inverno
e não abra a porta para estranhos.
De estranhos, basta-nos.

Essas são as minhas considerações finais.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Felicidade


- Você acredita na bondade das pessoas?
- Depende da pessoa, ué.
- Mas eu digo dos seres humanos em geral, você acredita?
- Que pergunta genérica...
- Então generalize a resposta!
- Então eu acho que não.
- Nem eu. Mas e na felicidade?
- Não existe isso de acreditar em felicidade.
- Isso quer dizer que você não acredita?
- Eu quis dizer que não existe uma escolha entre acreditar ou deixar de acreditar em um fato, tal como a gravidade ou o resultado de 2+2. A felicidade é um fato!
- Mas tem tantas pessoas infelizes no mundo...
- Isso é porque o ser humano acredita que deve ser feliz.
- E isso está errado?!
- Sim! Observe um pássaro qualquer por algum tempo. Você vai notar pelo seu voo ou por seu canto que ele não espera ser feliz... Ele simplesmente é.
- É verdade. O que você quer comer hoje?
- Pizza.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Bumerangue


Estava na casa dos meus 8 ou 9 anos. Calcei minhas chuteiras, peguei minha bola e sai de casa. Mesmo tampinha, me sentia sempre como Zé Geraldo em Reciclagem, enquanto posturava o trinco do portão, fechando-o. Pois bem, marquei minha rota para a rua de baixo, onde lá decerto estaria toda a minha turminha num campinho de barro, este que no entanto para nós, era como uma luxuosa arena poli-esportiva. No traçado das ruas de meu vilarejo, para alcançar a esperada rua de baixo, era necessário fazer uma curva bastante acentuada, quase como numa rotatória. Naquele dia, sentado exatamente por ali no ápice da parábola um senhor magro e barbado, com olhar severo sobre todas as coisas do mundo. Ao observar meu movimento sinuoso, numa voz rouca e de baixo alcance o moribundo despeja sobre mim suas palavras: "A vida é como um bumerangue".


Hoje entendi.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Senoide

Dentro do que ouço
vejo a aurora boreal
do que outrora fui,
magistral.

Olhar sinuoso,
vagueando abissal
pelas ruas como luz,
pontual.

Dentro do que ouço
tantas ondas num plural
dançando sobre o canto
universal.

E no tempo,
agora explano como nau
sinto o vento em seu torpor
senoidal.

Dentro do que ouço
vejo nobreza vitral
encantada sobre a alma,

imortal.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Beta-endorfina


Não me lembro mais qual foi a última vez que te vi. Não me lembro dos nossos olhos se tocarem no ar. Não consigo me lembrar da sua roupa ou do seu cabelo naquele dia, elementos que outrora não me saiam da memória. Não me lembro mais quais foram nossas últimas palavras trocadas e também já me esqueci onde exatamente estávamos. Não me lembro de ter dito adeus.

Durante muito tempo imaginei que a vida seria o jogo simples que costumávamos jogar. No meu imaginário, não exista toda essa guerra, essa ambição, esse desejo de sempre querer mais. No meu interior, era impossível caber mais, posto que tudo o que eu sempre necessitei já estava ali, muito bem guardado, ocupando o que sou... ocupando o que eu era. Só que agora não sou nada. E ainda sou alguma coisa. Então o que eu fui, de fato?

Estou me esquecendo das suas expressões, do brilho nos teus olhos, do tom da sua pele. Mal consigo ver na mente como era o seu cabelo ou a sua estatura. Não me lembro muito bem do seu cheiro ou das roupas que você costumava usar. Estou me esquecendo da sua voz, embora eu possua bem guardado um registro dela gravado. Eu poderia me lembrar para sempre, mas não vou. Antes, eu não tinha coragem. Hoje não preciso.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Lisergia


Existe
no encantar das noites e dos dias,
no encontrar das minhas melodias,
o teu olhar em lisergia.

Na voz que ouço,
uma graça rara.

                   E o tempo quase para.

                   Fugo-me.

Escondo-me na parte em que caibo
um nobre canto
um nó atado

Encanto,
no encontrar da luz que bem me guia,
no existir das horas de afasia,
o teu olhar em lisergia.
                
                   Perco-me

e demoro à ser achado
escutando na esquina
do seu sonho de menina
(um nobre canto)
a maneira de sair desse tornado

                   Prendo-me

na liberdade
de querer ficar.

Encontro
no existir das regras e rotinas,
no encantar das cores das cortinas,
o meu olhar em lisergia.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Deriva


Lembro-me da aurora bem no início de algum outubro passado. O mar chacoalhava o pensamento que se perdia sobre a rotunda de um inestimável horizonte azul. O silêncio era suavemente preenchido com o cantar de algumas garças em seu baile ou balé nas nuvens, ou com o bate-lá-bate-cá da água salgada em si mesma. Deitei a cabeça sobre a maciça madeira, simbolo limítrofe entre a popa e a proa da pequena embarcação que havia em mim. Embarquei-me. Foi quando me senti também batendo em mim mesmo. Apavorei-me: notei que estava sozinho... Eu que sempre fui acostumado a sentir-me capitão, de repente vi-me marujo. De repente vi-me malvado. De repente vi-me sujo. A bússola, nobre ferramenta de outrora, estava completamente desnorteada. As velas queimavam lentamente enquanto buscavam na suavidade das horas se aproximarem de seu fim. Foi quando começou o maior maremoto já registrado em meu universo. O medo. O medo tocava meu peito, junto com toda a maleabilidade da água que, embora se perdessem no contato ao leme, traziam dor. E a dor ali ficava. E a dor ali morou. Fora de rumo, simplesmente naveguei, no ponto cego de alguma fossa interminável. Uma profundeza de contradições fizera-me experimentar a força máxima na hora errada. Hora errada. A força do maremoto fez de mim uma embarcação virada. E eu não havia conseguido encontrar o caminho. Tentei fugir, mas era eu. Fiquei. Boiei. Desapareci.

Pode ser que eu nunca tenha sido de fato um capitão, mas tenho plena certeza de que também nunca fui marujo. O destino certo era o incerto e a deriva era a verdadeira resposta. De repente vi-me mar.