domingo, 2 de setembro de 2012

Verso Inverso


Eu sou como a madrugada,
que sabiamente se esconde
na calada de um mundo
que adormece.

Sou como as gotas frias
das manhãs de julho,
quase sempre ácidas,
resfriando
os cabeças quentes da modernidade.

Sou como a pimenta
no docinho mexicano,
que faz a criança
sentir nojo
de quem ama.

Sou como arco-íris
durante a noite
ou como o vaga-lume
durante o dia.

Sou como a lembrança
do que não aconteceu,
como um relapso instante
intento, eternizado.

Sou como o ar
que vive dentro da bexiga:
ele está lá,
mas insistem em chamá-lo de vazio.

Sou como o relógio digital,
que mostra o assassinar das horas
sem apontar para o tempo.

Eu sou um celular no Alasca.

Sou as paredes
que envolvem o presídio,
que na visão do prisoneiro
é o real maior inimigo.

Sou como uma gaiola,
traiçoeira,
gélida,
apertada,
que impede
que o pássaro
encontre o céu,
encontre o sol,
encontre a si.

Mas se te pretendes
aventurar por essas bandas,
lhe insisto, perca o medo.
A madrugada irradia ideias,
e os pássaros que não voam
ainda assim podem cantar.
Porque eu sou,
no fim das contas,
como uma dessas fechaduras invertidas:
apenas se consegue abrir
quando se gira a chave
para o outro lado.