terça-feira, 31 de julho de 2012

Julgamento


Era mais uma dessas tardes cinzentas, estando esta à beira do seu fim, bem pra lá das 17h. Eu caminhava pela calçada como habitualmente faço: mãos nos bolsos, fones nos ouvidos. Nunca fui muito de prestar atenção ao meu redor quando ouço música, ainda mais se tratando de um álbum novo, como era o caso. Mas naquela deixa, um pouco à minha frente, no mesmo lado da calçada e seguindo para a mesma direção, avistei uma “garota interessante”. Vestia uma blusa de flanela, tendo acima um enorme capuz. Era xadrez, daquele tipo clássico, escocês em azul marinho com traços vermelhos. Aparentemente, também havia fios saindo por suas orelhas e com o chacoalhar sutil em seu pescoço, parecia ser boa música. Nos pés, all stars (qual é o plural de ‘all star’? E digo no plural porque era um em cada pé...). A moça, com um caminhar suave portava também uma bolsa, bem vermelha, bem legal, dessas  que se carrega no ombro, no caso dela, o direito. Ela segurava com força, como se protegesse o conteúdo da mesma em alerta máximo. Pelo balançar macio dos cabelos, calculando seu grau de vaidade, estipulo que ali haveria maquiagens e coisa e tal - os clássicos utensílios femininos cujo serventia máxima é torná-las menos parecidas com animais humanos e mais parecidas com anjos do céu.  Não cheguei a fitar seu rosto em momento algum, posto que ela sempre estivera a dar às costas ao meu campo de visão. Mas por todo instante coloquei-me à imaginar seus traços, seus olhos. Conhece-te muito sobre alguém, apenas pelos olhos... mas esse foi o único detalhe que me faltou para julgá-la ali mesmo como uma “garota interessante”. Pois bem, passos a frente – momento em que cheguei mais perto de conhece-la enfim – a jovem direcionou seu torso para o outro lado da rua e acenou vividamente para algum bom amigo ou para alguma irmã, não sei.  Intrometido, busquei no além da pista, quem seria o sujeito que a conhecia para, sei lá, descobrir um pouco mais sobre ela também conhecendo com quem ela anda, no melhor estilo Jesus Cristo. Na calçada vizinha, havia três estabelecimentos que me deixaram intrigados: Um estúdio de tatuagens – com sujeitos fortes, pintados e com cara de mal, bebendo e fumando na portada; Um salão de beleza – cheio das mulheres-periquitas, enfeitadas e enfeitando-se, falando mal da vida alheia como de costume, julgo; Uma casa de carnes – esta no entanto se encontrava de portas fechadas. A noite se posicionara e a escuridão já deitara sobre nós. Sentado ao meio fio do açougue, um senhor aparentemente pobre, demonstrando muitas pancadas da vida em cada uma de suas rugas.  Não consegui identificar para quem aquele aceno se direcionara, e mantive minha dúvida comigo pelos segundos seguintes imaginando como poderia ser o perfil da moça em cada uma das três situações: se por ventura cumprimentara os fortões tatuados, seria ela uma garota despojada, conhecedora das artes tailandesas! Se fossem as mulheres-periquitas alvo de seu ‘olá’, poderia ser a garota uma patricinha ou uma vaidosa, alguém que goste de moda e perfumes ou coisas outras tais. Não consegui traçar quem seria ela no caso de seu tão melhor amigo ser o senhor enrugado... Isso demandaria muito tempo, uma vez que teria eu que aprofundar-me em conhecer o senhor, tanto quanto aprofundei-me em conhecer a garota (válido lembrar também que a essa altura me dei conta de que estava interessado em saber sobre ela e nem tinha comigo um motivo para isso...  julgo-me maluco por vezes!). Mas enfim, essa intragável dúvida, muito importante para a implitacidade do conto, não teve tantas delongas: ao passarmos mais à frente, uma das mulheres-periquitas a convocou em alta voz: “Apareça lá em casa”. Em resposta, num momento em que quase pude ver seus olhos, minha garota devolveu: “Apareço sim. E você também!”. Risos, risos, as vidas seguiram. Felicitei-me quando consegui julga-la finalmente em veredito último: tratava-se de uma patricinha ou uma vaidosa, alguém que goste de moda e perfumes ou coisas outras tais. Legal, bacana. Uma pessoa de bem! Uma "garota interessante".

Naqueles olhos, sangue e fogo.
Naquela bolsa, facas e metais.
Naquela noite ela matou três.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

4h36

Parece que meu mundo é mágico
e que minha missão esta completa.
Parece ser possível escalar
o sol, o céu e a luz
da qual esta vida está repleta.
Parece que possuo
todos os dons que existem,
ouço mentes,
atravesso paredes,
sou poeta.
Parece que é hora de cantar,
parece que é hora de viver,
parece que é hora de voar...
mas é só a hora de dormir.
Então durmo.

Parece que teu caminho está obscuro
e que teus instantes sempre inventam a loucura.
Parece que a memória
dos invernos que passaram
não encontram mais
o brilho e a doçura.
Parece que um monstro lhe aflige,
como um câncer
que ainda não possui cura.
Parece que é hora de fugir,
parece que é hora de chorar,
parece que é hora de fingir...
mas é só a hora de dormir.
Então durma.

À meia-noite,
costumamos dizer às pessoas:
“durma com os anjos”.
Mas e para os anjos, enfim,
o que podemos dizer?!
Quem é que vai estar
ao seu lado quando você precisar?
Quem efetivamente vai te abraçar?
Quem vai cantar para ti
aquela velha canção de ninar, meu anjo?

Que não seja eu,
porque na tua história
eu sou o monstro.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Marco Zero

Você não deve nem imaginar, mas eu estive lá novamente. Fui visitar nosso marco zero, símbolo de uma eternidade que se acabou. O lugar parecia diferente e não apenas por nossos nomes estarem notadamente se apagando aos poucos. Senti-me estrangeiro, em terras que já foram minhas. E é estranho eu ser estranho... as árvores são as mesmas, os bancos também são. Só que não. Até as finas gotículas da neblina que outrora nos abraçara, embora me parecessem familiares, me fizeram perceber que a sensação de tê-las tocando a minha pele definitivamente não era mais a mesma. Noutros tempos, jamais me incomodaria com elas, mas naquele momento, queria apenas me abrigar. Antes de sair à procura de um teto ou algo assim, fiquei uns instantes mais ali, fitando as sobras dos sonhos, em solidão. Ao meu redor, às mesmas pessoas corriam para lá e para cá, como se buscassem por algo que estivesse em suas direções opostas. Elas continuam vindas de todas as direções, indo para todas as direções, o tempo todo, incansáveis. E eu estatizado. Busquei entender porque tudo parecia tão igual, mas ao mesmo tempo tão diferente... Busquei lembrar-me qual foi a última vez que estivemos ali juntos. Vasculhei num canto amargo da memória qualquer resquício daquela velha sensação, daquele velho sentimento. Foi quando percebi que em mim está tudo mudado: tive acesso negado. O lugar é exatamente o mesmo, tudo está do jeitinho como deixamos, antes de sairmos, apagarmos a luz e fecharmos a porta. Ainda de pé, diante daquela árvore, batendo uma informal continência com as mãos no bolso, senti que a neblina virou chuvisco, este que virou chuva, ríspida, caindo sobre minhas costas. A gota que escorrera no meu rosto não era mais uma lágrima minha, era apenas uma lágrima do céu. Meu mundo mudou, meu olhar emudeceu. Mudei. Atentei-me a um novo fato nessa história que deu mais sentido às explicações para o fim da eternidade: quando você saiu de dentro mim, apenas teve o trabalho de fechar a porta... porque a luz já estava apagada fazia tempo. E isso não me entristeceu, como aconteceria até alguns meses atrás. Creio que esta tenha sido a última vez que perdi tanto tempo divagando sobre isto. O fato é que o lugar está exatamente igual, mas eu estou completamente diferente. Acho que é a barba.