sábado, 30 de junho de 2012

O Sétimo Dia

Hoje eu quero andar descalço, quero dançar pela casa e brincar com meu cachorro, Duque. Hoje quero tomar um açaí, contar histórias sobre a Malásia e fazer algumas pessoas felizes. Quero para hoje umas pizzas, quero amigos, música alta nos ouvidos e mamãe me dizendo o quanto sou especial. Quero tocar bateria, mesmo que sem os pratos. Quero sair de casa, respirar um pouco o mesmo ar que os pássaros respiram ao longo de toda a sua vida. Hoje quero ser feliz, acima de qualquer coisa... Finalmente, esse filho da puta desse sábado chegou!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Três Versões


#1
Não quero mais deixar que se aproximem. Também não estou aqui pra me aproximar. Não vou mais esbarrar meu ego em outras mentes, nem vou mais entregar o que eu tenho de mais precioso, assim, tão facilmente. Não vou mais me abrir, não vou mais compartilhar, compactuar ou ofertar minha alma pra ninguém, não enquanto eu conseguir evitar! E isso não quer dizer que deixarei de lutar: nasci vermelho, cresci em embates, uso Linux!... Só quero dizer que estou fechado para balanço: Ninguém mais me balançará, pelo menos enquanto eu conseguir evitar! Pode-te pensar o que quiser: pense que estou louco, pense que estou bravo, pense que é rancor, dor, amargura, pense o que quiser! Pode até pensar que agora sou do mundo... Não é o que todos dizem? “Agora ele é do mundo!”. Só que não: a verdade é que pela primeira vez em muitos anos, serei meu.

#2
Não vou mais juntar tantas estrelas, quando a intenção for entrega-las a um asteroide. Asteroides estão sempre fugindo... Sempre rasgando o universo em alta velocidade, alta voracidade, alta. Nunca param por aqui. Nunca param. Nunca. Mas e agora? O que farei com todas as estrelas que juntei? Enfiá-la-eis no cu? – Não! Deixareis de herança para o próximo asteroide. Mas será apenas um aluguel, um empréstimo, um improviso. Essas estrelas são minhas agora e apesar de compartilhar todo esse brilho, em seus núcleos ninguém mais irá queimar. Apenas eu.

#3
Não posso mais deixar a porta aberta. Consegue entrar pela janela?

terça-feira, 19 de junho de 2012

Juvenis



Não faz tanto tempo assim.  Pra ser honesto, nada do que vi/vivi faz tanto tempo assim: sou bem jovem. E não estou te sacaneando, caro leitor que já dobrou a esquina do meio século. És tão jovem quanto sou. Se és vivo, és jovem. A vida humana é um lapso. Tudo passa muito – MUITO! – rápido. Se tu que me deténs enquanto texto neste momento já passou dos 60, dos 70, dos 80, alcançou a última marcha e mora em uma casinha ao Sul de Connecticut, estando à muitas milhas do vilarejo onde nasceu, lembre-se: tu és jovem. Se viste a grande guerra, a explosão de Chernobyl, o gol de mão do Maradona e o homem pisando na Lua, és jovem. Se viste o homem PISANDO NA TERRA, és jovem. Claro que não viste o homem pisando na água. Nenhum de nós viu. Somos todos jovens demais para ter visto.  E vamos todos morrer jovens. Meus olhos não vão ver tudo o que me pedem. Minha pele não vai tocar tudo o que me pede. Meu coração não vai sentir tudo o que me pede. Não há tempo para tudo. Morreremos jovens. A tecnologia avança, a medicina descobre a cura para o câncer e então morremos jovens, aos 120 anos. Não há tempo para nada. Valorize o que mais te importa. Dedique-se ao que mais convém. Priorize o que mais lhe faz bem...  porque morrerás jovem, dentro de 150 anos (sabe-se-lá-no-mais-tardar!). De tudo que teu peito clama, escolha três. Se és bom em administração, cabe-lhe quatro ou cinco escolhas... Eu escolhi levar comigo quem eu amo. Não muita gente. Pouco. Pouco. Não me cabe tanto. Não me cabe todos. Escolhi quem merece.  Porque no fim das contas, a única coisa que importa nessa vida são as pessoas. Não importa o seu carro, não importa a sua casa. O seu trabalho, as suas roupas ou o seu tapete-persa, não, não, nada disso importa. Tudo o que importa mora dentro das pessoas. Mas a maioria de nós somos jovens demais pra entender isso.

sábado, 16 de junho de 2012

Dos Dias


Ao novo Sol
as sobras
das sombras
da noite
são rastros.
Os restos
dos astros
da noite
são sombras
das sobras
do Sol.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Noutros Cantos

Andamos pelas ruas deixando um pouco de nós em cada esquina da cidade. Explico-me desde já: em algum canto daquele lugar há muito tempo não frequentado, existe um pouco de si. Deixaste-te lá! 

Lembro-me do verão de 2009: o parque, as árvores, o cão-amigo. Ainda me sinto lá. Há um pouco de mim depositado naqueles bancos, naqueles becos, naqueles cantos. 

Porém, o tempo engole os dias e apesar de termos esparramando-nos em cada rua que passamos, tudo não passa de uma eterna reminiscência. 

No parque, os pássaros cantavam, quase que comigo. Hoje, busco esparramar-me noutros cantos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Guarda-chuva

Lá fora, o mundo cai em chuva e vento. Nas ruas, formam-se as poças, enchem-se os boeiros em pouco tempo. O lacrimejar dos anjos sobre meu rebento. É triste, é bonito, estranho e fantástico o que ostento. Mas não sou prosa, não sou poesia. Sou só um passatempo! Lá fora, a água seca, molha todo o pavimento. Há patas de um homem ou outro bicho, marcadas no cimento. O pedreiro que não pode consertar, a massa que não pode se secar, a brincadeira de Deus sobre os paradoxos do mundo, lento.  Lá fora, o céu despeja frias gotas em seu quase vitalício estado, cinzento. E se molhar pode ser inevitável... Mas se molhar enfim, a gente seca, alento! Não é problema, nem solução. Nem prosa, nem poesia... lamento. Lá fora, o sol desdobra o pensamento: está aqui, sim, mas onde está o aquecimento? Lá fora, gotas caem a quase todo momento. Mas quer saber? Lá fora, deixa chover... Só não deixe chover dentro de você. Não permita, não padeça!  E se ainda assim a tempestade  insistir em invadir a tua sala ou o teu quarto, eu entendo... Meu segundo nome é guarda-chuva e eu deixo você morar aqui dentro.

domingo, 3 de junho de 2012

Intervalo

Dentre os velhos ventos
frios da manhã
e os prantos,
gritos,
cantos,
novos,
gélidos do fim da tarde
por enquanto
envolto aos planos
encontro meu encanto
em intervalo

A mente mente paralelamente
em egocêntrico momento
do quase sempre
altruísta elemento
que isento de lamentos
busca paz.
Solidão
e nada mais.

Dentre as dores de mim ontem
e as cores,
flores
e amores
quase sempre
sem controle de outrora,
vagueio encanto
enquanto canto
devaneios
no intervalo.

O mundo imundo muda
e brinca de ser Sol
e finge que é surdo
num silêncio uniforme
que envolve esta canção

Mas o sino soa.