sábado, 3 de março de 2012

Ocaso

Você pode limpar sua casa, tirar o cocô do seu quintal e encerar o carro da sua irmã, enquanto a noite não chegar. Você pode mexer na antena de sua TV e gritar de lá de cima: "E agora, ficou bom?", mas só enquanto a noite não chegar. Você pode pintar ornamentos nas bordas das paredes, aqueles pequenos cujo há notável dificuldade em enxergá-los, mas experimente tirá-los que verás fácil a diferença. Sim, você pode, mas só enquanto a noite não chegar. Você pode explorar o mato do terreno baldio ao lado da sua casa, apenas por aventura, apenas por diversão. Você se sentiria melhor em meio aos pássaros e as quaresmeiras de fevereiro. Mas poderá enquanto a noite não regressa, apenas. Você pode soltar pipa com  os pequenos seres ou fazer-lhes um carrinho de rolimã, enquanto a noite não chegar. Você pode consertar aquele velho banco que sentarás há muito tempo atrás, dentre outras coisas mais, hoje oblíquas às tuas vontades, mas pode apenas enquanto a noite não chegar. Podes consertar-te, mas algo diz-me que não vais. Impiedosa, a noite nunca tarda a tardar-se. De mãos limpas, depois de um longo dia, deitarei no piso limpo de meu quintal e observarei pela última vez as lindas estrelas do fim deste verão.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O Lado Negro do Oceano

Muitas vezes a dor vem e é inevitável. Normalmente, as piores vem de dentro pra fora, ardentes, rasgantes.  Muitas vezes os motivos não são oriundos dos nossos próprios organismos. Percebemos que a dor apenas mora dentro de nós, mas na realidade a razão está fora. Muitas vezes a dor é reflexo de um sentimento bom, por que não? Um sentimento tão maravilhoso e tão grande, que se houvesse uma escala para medir essas unidades, provavelmente este sentimento ultrapassaria a nota máxima, daria a volta nos ponteiros, estagnando-se na nota mínima. É nesse ponto que a dor começa. Muitas vezes temos medo de sentir a dor, tal qual criança que conhece a injeção. Mas a injeção às vezes pode salvar sua vida, o que faz o período de dor ser um mal necessário, muitas vezes esquecido, inclusive. Ás vezes a dor é um alerta - do nosso corpo ou da nossa alma - para que nós consigamos identificar algo errado e corrigi-lo. É nesse ponto em que você deve buscar refúgio. É nesse ponto em que você deve encontrar remédios. É nesse ponto em que você deve fugir de casa ou da vida que te levas. É nesse ponto em que você deve voltar a levar a vida. Fazer aquele banquete a muito tempo anunciado. Ir para aquele lugar em que já tanto foi chamado. Conversar com aquelas pessoas que quase sempre lhe deixam recado. Tomar aquele banho de mar, em águas turvas e misteriosas, às quais você nunca imaginou que um dia colocar-se-ia a molhar-se. É nesse ponto em que você deve se molhar. É nesse ponto em que você deve deixar que a água e o sal salvem sua pele, anestesiem seu corpo, enganem sua alma. É nesse ponto em que me encontro. Navegar é preciso.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Microfonia

Parte escreve
e parte outra
empunha a guitarra
que em seu ápice de distorção
e igualmente em coração
fiel reflete
o que dentro cá me cabe.

A microfonia,
densa,
inevitável à esquina
em meus acordes,
tensos,
que acordam objeto
em dor e paz
um pranto a mais
que jamais se sabe.

A sintonia
penso
pesa
pensionando-se
á este encanto.
Enquanto canta
minha guitarra ama
e clama
pra que o solo
nunca acabe.

Mas parte em mim
que parte enfim
somente espera
que me livre de ser solo
e me transforme em base.