quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Fotofobia

Sempre temerei seus olhos claros, que incansavelmente vasculham por dentro de mim todos os sentimentos que não pretendo demonstrar. Sempre temerei encará-los diretamente, pois quando o faço, me fica a impressão de que toda a soberania desse mirar me arranca algumas verdades que não quero assumir. Sempre terei seu olhar com algum receio: temo seus olhos porque eles me hipnotizam, porque eles me penetram. Temo seus olhos porque eles me engolem! E o mais triste é que os temo, principalmente, porque tudo isso foi muito bom. Tenho, na realidade, profundo medo de me perder na longa estrada iluminada que a claridade dos seus olhos me permitiram atravessar. Sempre temerei seus olhos claros, mesmo vivendo neles as melhores ligeiras viagens da minha vida. Não que eu tenha medo do trajeto, mas sim do destino.

A Moldura


Fantasmas nas fotografias
- um espectro entre os anjos e demônios 
que nos habitam. 

Rostos já não vistos 
como foste em outrora, 
apenas deixam na memória 
um espaço vago, 
a silhueta borrada
que noutros sonhos
e noutras vidas
ainda nos visitam.

As luzes de natal
vagam nas nuances do meu quarto
e permeiam nas paredes
que insistentemente fito.
E na dança de todas as cores
ouço ao fundo a canção das dores
que compus na noite fria
de um inverno 
que não minto.
Pois por fora, veja,
o fervor que sinto
na verdade é frio 
em estranho inferno 
que por dentro omito.

Fantasmas nas fotografias
que mostravam nosso empenho.
Ainda sou a base 
que assegura esse engenho
abraçando o horizonte:
o mar, o céu, o sol e a fonte
cristalina sob a ponte
por onde atravessa 
cada sonho que tenho.

Fantasmas nas fotografias
que hoje não mostram mais ninguém:
você que não está lá 
porque se foi em sua procura
e eu que não apareço
- não porque não mereço -
mas porque sou a moldura.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Blues & Vinho


O solo ecoava, titubeando fortemente por todas as paredes desse quarto. Era mais uma vez o ladrar da minha guitarra no meio da madrugada, tirando aos poucos pedaços de mim e espalhando-os por cada objeto colorido que a pudera ouvir. Sobre a mesa, uma taça. Meio cheia, meio vazia... Vi-me-na.

É quando a música vence o músico: na passagem dos acordes, derrubo-me – mas enquanto taça! - espatifo-me no chão. O barulho estragara a canção, como um furioso rugido da natureza se esfacelando. Espalhei-me em dezenas de pequenos cacos, mas curioso que confesso, dadas as condições achei interessante! Espalhado, me senti quase que onipresente (na premissa de que este pequeno quarto é todo meu mundo). Pude ver-me ali no chão finalmente como dono de todas as coisas que pudera em partes abraçar. E mais: as luzes alegres nas paredes e no teto desse cômodo fizeram-me um céu estrelado - no chão. Brilhei.

Posso estar esparramado, posso estar ali no piso, posso estar em cacos, posso estar imóvel, posso estar calado, posso estar ferrado, mas estou sorrindo. Ainda sinto-me estrelado, ainda sinto-me poeta, ainda sinto-me repleto de algo, mesmo que algo impreciso! E não experimente você tocar em uma estrela de verdade, ou ferirás queimado. E não experimente você pisar no tapete de estrelas que me tornei, ou ferirás cortado. Mas experimente me juntar os cacos, reconciliar as partes... posso não voltar a ser uma taça, posso ser outra coisa que queira.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Clave de Sol

Somos como dois acordes
além da escala bemol
que se impõem em um espaço
maior do que de fato há.

Pois, quando estás em uma música,
sempre penso que és o Sol;
E quando tento lhe cantar
sempre me vejo Lá

domingo, 28 de outubro de 2012

Considerações Finais


Como um latente memorando num espelho,
devolvo-te a imagem que me passas.

Pode ter sido a hora,
pode ter sido a alma,
mas algo está errado.
Vamos regressar.
Vamos nos reaprender,
vamos nos retrair.
Vamos nos re-tra-ir...

Guardo-me
e resguardo o sentimento.
Desculpe-me por confundir-te,
desculpo-me por iludir-me.

Pego minha sacola,
pego minha viola,
pego minha estrada.
Buscando um outro nirvana,
vivendo o novo
de novo e de novo.

Guarde tudo muito bem,
pois esse é o dia em que eu resolvi sumir.
Eu voltarei,
mas não me espere para o jantar.
Se agasalhe bem no inverno
e não abra a porta para estranhos.
De estranhos, basta-nos.

Essas são as minhas considerações finais.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Felicidade


- Você acredita na bondade das pessoas?
- Depende da pessoa, ué.
- Mas eu digo dos seres humanos em geral, você acredita?
- Que pergunta genérica...
- Então generalize a resposta!
- Então eu acho que não.
- Nem eu. Mas e na felicidade?
- Não existe isso de acreditar em felicidade.
- Isso quer dizer que você não acredita?
- Eu quis dizer que não existe uma escolha entre acreditar ou deixar de acreditar em um fato, tal como a gravidade ou o resultado de 2+2. A felicidade é um fato!
- Mas tem tantas pessoas infelizes no mundo...
- Isso é porque o ser humano acredita que deve ser feliz.
- E isso está errado?!
- Sim! Observe um pássaro qualquer por algum tempo. Você vai notar pelo seu voo ou por seu canto que ele não espera ser feliz... Ele simplesmente é.
- É verdade. O que você quer comer hoje?
- Pizza.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Bumerangue


Estava na casa dos meus 8 ou 9 anos. Calcei minhas chuteiras, peguei minha bola e sai de casa. Mesmo tampinha, me sentia sempre como Zé Geraldo em Reciclagem, enquanto posturava o trinco do portão, fechando-o. Pois bem, marquei minha rota para a rua de baixo, onde lá decerto estaria toda a minha turminha num campinho de barro, este que no entanto para nós, era como uma luxuosa arena poli-esportiva. No traçado das ruas de meu vilarejo, para alcançar a esperada rua de baixo, era necessário fazer uma curva bastante acentuada, quase como numa rotatória. Naquele dia, sentado exatamente por ali no ápice da parábola um senhor magro e barbado, com olhar severo sobre todas as coisas do mundo. Ao observar meu movimento sinuoso, numa voz rouca e de baixo alcance o moribundo despeja sobre mim suas palavras: "A vida é como um bumerangue".


Hoje entendi.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Senoide

Dentro do que ouço
vejo a aurora boreal
do que outrora fui,
magistral.

Olhar sinuoso,
vagueando abissal
pelas ruas como luz,
pontual.

Dentro do que ouço
tantas ondas num plural
dançando sobre o canto
universal.

E no tempo,
agora explano como nau
sinto o vento em seu torpor
senoidal.

Dentro do que ouço
vejo nobreza vitral
encantada sobre a alma,

imortal.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Beta-endorfina


Não me lembro mais qual foi a última vez que te vi. Não me lembro dos nossos olhos se tocarem no ar. Não consigo me lembrar da sua roupa ou do seu cabelo naquele dia, elementos que outrora não me saiam da memória. Não me lembro mais quais foram nossas últimas palavras trocadas e também já me esqueci onde exatamente estávamos. Não me lembro de ter dito adeus.

Durante muito tempo imaginei que a vida seria o jogo simples que costumávamos jogar. No meu imaginário, não exista toda essa guerra, essa ambição, esse desejo de sempre querer mais. No meu interior, era impossível caber mais, posto que tudo o que eu sempre necessitei já estava ali, muito bem guardado, ocupando o que sou... ocupando o que eu era. Só que agora não sou nada. E ainda sou alguma coisa. Então o que eu fui, de fato?

Estou me esquecendo das suas expressões, do brilho nos teus olhos, do tom da sua pele. Mal consigo ver na mente como era o seu cabelo ou a sua estatura. Não me lembro muito bem do seu cheiro ou das roupas que você costumava usar. Estou me esquecendo da sua voz, embora eu possua bem guardado um registro dela gravado. Eu poderia me lembrar para sempre, mas não vou. Antes, eu não tinha coragem. Hoje não preciso.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Lisergia


Existe
no encantar das noites e dos dias,
no encontrar das minhas melodias,
o teu olhar em lisergia.

Na voz que ouço,
uma graça rara.

                   E o tempo quase para.

                   Fugo-me.

Escondo-me na parte em que caibo
um nobre canto
um nó atado

Encanto,
no encontrar da luz que bem me guia,
no existir das horas de afasia,
o teu olhar em lisergia.
                
                   Perco-me

e demoro à ser achado
escutando na esquina
do seu sonho de menina
(um nobre canto)
a maneira de sair desse tornado

                   Prendo-me

na liberdade
de querer ficar.

Encontro
no existir das regras e rotinas,
no encantar das cores das cortinas,
o meu olhar em lisergia.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Deriva


Lembro-me da aurora bem no início de algum outubro passado. O mar chacoalhava o pensamento que se perdia sobre a rotunda de um inestimável horizonte azul. O silêncio era suavemente preenchido com o cantar de algumas garças em seu baile ou balé nas nuvens, ou com o bate-lá-bate-cá da água salgada em si mesma. Deitei a cabeça sobre a maciça madeira, simbolo limítrofe entre a popa e a proa da pequena embarcação que havia em mim. Embarquei-me. Foi quando me senti também batendo em mim mesmo. Apavorei-me: notei que estava sozinho... Eu que sempre fui acostumado a sentir-me capitão, de repente vi-me marujo. De repente vi-me malvado. De repente vi-me sujo. A bússola, nobre ferramenta de outrora, estava completamente desnorteada. As velas queimavam lentamente enquanto buscavam na suavidade das horas se aproximarem de seu fim. Foi quando começou o maior maremoto já registrado em meu universo. O medo. O medo tocava meu peito, junto com toda a maleabilidade da água que, embora se perdessem no contato ao leme, traziam dor. E a dor ali ficava. E a dor ali morou. Fora de rumo, simplesmente naveguei, no ponto cego de alguma fossa interminável. Uma profundeza de contradições fizera-me experimentar a força máxima na hora errada. Hora errada. A força do maremoto fez de mim uma embarcação virada. E eu não havia conseguido encontrar o caminho. Tentei fugir, mas era eu. Fiquei. Boiei. Desapareci.

Pode ser que eu nunca tenha sido de fato um capitão, mas tenho plena certeza de que também nunca fui marujo. O destino certo era o incerto e a deriva era a verdadeira resposta. De repente vi-me mar.

domingo, 2 de setembro de 2012

Verso Inverso


Eu sou como a madrugada,
que sabiamente se esconde
na calada de um mundo
que adormece.

Sou como as gotas frias
das manhãs de julho,
quase sempre ácidas,
resfriando
os cabeças quentes da modernidade.

Sou como a pimenta
no docinho mexicano,
que faz a criança
sentir nojo
de quem ama.

Sou como arco-íris
durante a noite
ou como o vaga-lume
durante o dia.

Sou como a lembrança
do que não aconteceu,
como um relapso instante
intento, eternizado.

Sou como o ar
que vive dentro da bexiga:
ele está lá,
mas insistem em chamá-lo de vazio.

Sou como o relógio digital,
que mostra o assassinar das horas
sem apontar para o tempo.

Eu sou um celular no Alasca.

Sou as paredes
que envolvem o presídio,
que na visão do prisoneiro
é o real maior inimigo.

Sou como uma gaiola,
traiçoeira,
gélida,
apertada,
que impede
que o pássaro
encontre o céu,
encontre o sol,
encontre a si.

Mas se te pretendes
aventurar por essas bandas,
lhe insisto, perca o medo.
A madrugada irradia ideias,
e os pássaros que não voam
ainda assim podem cantar.
Porque eu sou,
no fim das contas,
como uma dessas fechaduras invertidas:
apenas se consegue abrir
quando se gira a chave
para o outro lado.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Neblina


Hoje sou neblina no teu céu
apagando no meu peito
teu deleito 
que não passa.

Firmo-me no efeito
dessa brisa fria 
sobre o eito 
que porfia 
nos pequenos focos
toda aquela velha luz, 
que na reminiscência doutras estações,
que em toda a essência das contradições
a cada dia se apresenta mais escassa.

Mas não sou como tu pensas,
neblina úmida e opaca.
Sou quase áspero,
metálico
não tão sereno nem serrado.
Não permeio
sobre os mesmos morros
vagueando sob
o que dentro
permanece errado.

Creio que não me entendas:
quando encontro outra porta
divago um mundo que me tenhas
e entorno sua lembrança morta.
Se sou neblina, compreenda
faço mais o tipo serra
que quando o ciclo se encerra
também no peito lhe corta.

domingo, 12 de agosto de 2012

O Paletó


Sou das antigas. Sou saudosista. Sou um cidadão muito muito nostálgico. Vivi pouco por enquanto, assim como todos nós vivemos, sempre pouco, mas tenho em mim uma alma – pra não dizer velha – um tanto quanto antiquada, um tanto quanto antiquarista. Volta e meia, sinto falta doutros dias que vivi na infância e, em casos supremos posso ir muito além: tenho saudades da época que não vi ou vivi, da infância dos meus pais, da infância dos meus avós, graças às poucas e pequenas partes deles que ficaram em mim e que de mim jamais deixarão de habitar.

Sinto falta das bandas de atitude, sinto falta das temáticas importantes, sinto falta dos carros que alimentavam seus motores às custas do carburador. Sinto falta dos Mamonas, do guaraná Brhama retornável e dos masters tazzos. Tenho saudade dos anos 90, tenho saudade dos anos 80, tenho saudade dos anos 70, do Pink Floyd, das roupas coloridas e dos movimentos sociais. Queria voltar a ter carrinhos, voltar a ter 7 anos, voltar a ter sonhos e planos fantásticos em um mundo onde golfinhos voam e esbarram nas ideias soltas pelo ar. Queria ter uma bicicleta para ir no Bar da Dora, na esquina, comprar 10 moranguetes com uma nota de um real.

Não posso mais pintar as paredes e o chão da casa com giz de cera, simplesmente porque não tenho mais idade para isso. Não posso mais correr e simplesmente correr, descoordenadamente, sem parecer louco. Não posso mais nadar pelado sem ser preso, não posso mais assistir desenhos sem que me achem muito besta. 

Sou das antigas, saudosista, nostálgico, antiquado. Tenho videogames velhos, um carro clássico, Lps originais. Meu violão já tem mais de uma década, minha escrivaninha tem pelo menos meio século e o teto que me abriga está próximo do centenário. Tenho muitas roupinhas xadrezes, uma boina e um chapéu. Tenho também um paletó, desses que gente fina portava à beira dos anos 40, sabe? Bolso interno e tudo mais. Gosto muito desse traje. Ele me consola sempre que me lembro que toda essa modernidade ter me alcançou, sempre que entristeço-me ao notar que sou escravo desta máquina qual escrevo. Noutra noite, por exemplo, guardei meu celular no bolso interno do meu terno, do lado esquerdo, colado ao peito. Quando você me ligou, pude sentir meu coração vibrar.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Julgamento


Era mais uma dessas tardes cinzentas, estando esta à beira do seu fim, bem pra lá das 17h. Eu caminhava pela calçada como habitualmente faço: mãos nos bolsos, fones nos ouvidos. Nunca fui muito de prestar atenção ao meu redor quando ouço música, ainda mais se tratando de um álbum novo, como era o caso. Mas naquela deixa, um pouco à minha frente, no mesmo lado da calçada e seguindo para a mesma direção, avistei uma “garota interessante”. Vestia uma blusa de flanela, tendo acima um enorme capuz. Era xadrez, daquele tipo clássico, escocês em azul marinho com traços vermelhos. Aparentemente, também havia fios saindo por suas orelhas e com o chacoalhar sutil em seu pescoço, parecia ser boa música. Nos pés, all stars (qual é o plural de ‘all star’? E digo no plural porque era um em cada pé...). A moça, com um caminhar suave portava também uma bolsa, bem vermelha, bem legal, dessas  que se carrega no ombro, no caso dela, o direito. Ela segurava com força, como se protegesse o conteúdo da mesma em alerta máximo. Pelo balançar macio dos cabelos, calculando seu grau de vaidade, estipulo que ali haveria maquiagens e coisa e tal - os clássicos utensílios femininos cujo serventia máxima é torná-las menos parecidas com animais humanos e mais parecidas com anjos do céu.  Não cheguei a fitar seu rosto em momento algum, posto que ela sempre estivera a dar às costas ao meu campo de visão. Mas por todo instante coloquei-me à imaginar seus traços, seus olhos. Conhece-te muito sobre alguém, apenas pelos olhos... mas esse foi o único detalhe que me faltou para julgá-la ali mesmo como uma “garota interessante”. Pois bem, passos a frente – momento em que cheguei mais perto de conhece-la enfim – a jovem direcionou seu torso para o outro lado da rua e acenou vividamente para algum bom amigo ou para alguma irmã, não sei.  Intrometido, busquei no além da pista, quem seria o sujeito que a conhecia para, sei lá, descobrir um pouco mais sobre ela também conhecendo com quem ela anda, no melhor estilo Jesus Cristo. Na calçada vizinha, havia três estabelecimentos que me deixaram intrigados: Um estúdio de tatuagens – com sujeitos fortes, pintados e com cara de mal, bebendo e fumando na portada; Um salão de beleza – cheio das mulheres-periquitas, enfeitadas e enfeitando-se, falando mal da vida alheia como de costume, julgo; Uma casa de carnes – esta no entanto se encontrava de portas fechadas. A noite se posicionara e a escuridão já deitara sobre nós. Sentado ao meio fio do açougue, um senhor aparentemente pobre, demonstrando muitas pancadas da vida em cada uma de suas rugas.  Não consegui identificar para quem aquele aceno se direcionara, e mantive minha dúvida comigo pelos segundos seguintes imaginando como poderia ser o perfil da moça em cada uma das três situações: se por ventura cumprimentara os fortões tatuados, seria ela uma garota despojada, conhecedora das artes tailandesas! Se fossem as mulheres-periquitas alvo de seu ‘olá’, poderia ser a garota uma patricinha ou uma vaidosa, alguém que goste de moda e perfumes ou coisas outras tais. Não consegui traçar quem seria ela no caso de seu tão melhor amigo ser o senhor enrugado... Isso demandaria muito tempo, uma vez que teria eu que aprofundar-me em conhecer o senhor, tanto quanto aprofundei-me em conhecer a garota (válido lembrar também que a essa altura me dei conta de que estava interessado em saber sobre ela e nem tinha comigo um motivo para isso...  julgo-me maluco por vezes!). Mas enfim, essa intragável dúvida, muito importante para a implitacidade do conto, não teve tantas delongas: ao passarmos mais à frente, uma das mulheres-periquitas a convocou em alta voz: “Apareça lá em casa”. Em resposta, num momento em que quase pude ver seus olhos, minha garota devolveu: “Apareço sim. E você também!”. Risos, risos, as vidas seguiram. Felicitei-me quando consegui julga-la finalmente em veredito último: tratava-se de uma patricinha ou uma vaidosa, alguém que goste de moda e perfumes ou coisas outras tais. Legal, bacana. Uma pessoa de bem! Uma "garota interessante".

Naqueles olhos, sangue e fogo.
Naquela bolsa, facas e metais.
Naquela noite ela matou três.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

4h36

Parece que meu mundo é mágico
e que minha missão esta completa.
Parece ser possível escalar
o sol, o céu e a luz
da qual esta vida está repleta.
Parece que possuo
todos os dons que existem,
ouço mentes,
atravesso paredes,
sou poeta.
Parece que é hora de cantar,
parece que é hora de viver,
parece que é hora de voar...
mas é só a hora de dormir.
Então durmo.

Parece que teu caminho está obscuro
e que teus instantes sempre inventam a loucura.
Parece que a memória
dos invernos que passaram
não encontram mais
o brilho e a doçura.
Parece que um monstro lhe aflige,
como um câncer
que ainda não possui cura.
Parece que é hora de fugir,
parece que é hora de chorar,
parece que é hora de fingir...
mas é só a hora de dormir.
Então durma.

À meia-noite,
costumamos dizer às pessoas:
“durma com os anjos”.
Mas e para os anjos, enfim,
o que podemos dizer?!
Quem é que vai estar
ao seu lado quando você precisar?
Quem efetivamente vai te abraçar?
Quem vai cantar para ti
aquela velha canção de ninar, meu anjo?

Que não seja eu,
porque na tua história
eu sou o monstro.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Marco Zero

Você não deve nem imaginar, mas eu estive lá novamente. Fui visitar nosso marco zero, símbolo de uma eternidade que se acabou. O lugar parecia diferente e não apenas por nossos nomes estarem notadamente se apagando aos poucos. Senti-me estrangeiro, em terras que já foram minhas. E é estranho eu ser estranho... as árvores são as mesmas, os bancos também são. Só que não. Até as finas gotículas da neblina que outrora nos abraçara, embora me parecessem familiares, me fizeram perceber que a sensação de tê-las tocando a minha pele definitivamente não era mais a mesma. Noutros tempos, jamais me incomodaria com elas, mas naquele momento, queria apenas me abrigar. Antes de sair à procura de um teto ou algo assim, fiquei uns instantes mais ali, fitando as sobras dos sonhos, em solidão. Ao meu redor, às mesmas pessoas corriam para lá e para cá, como se buscassem por algo que estivesse em suas direções opostas. Elas continuam vindas de todas as direções, indo para todas as direções, o tempo todo, incansáveis. E eu estatizado. Busquei entender porque tudo parecia tão igual, mas ao mesmo tempo tão diferente... Busquei lembrar-me qual foi a última vez que estivemos ali juntos. Vasculhei num canto amargo da memória qualquer resquício daquela velha sensação, daquele velho sentimento. Foi quando percebi que em mim está tudo mudado: tive acesso negado. O lugar é exatamente o mesmo, tudo está do jeitinho como deixamos, antes de sairmos, apagarmos a luz e fecharmos a porta. Ainda de pé, diante daquela árvore, batendo uma informal continência com as mãos no bolso, senti que a neblina virou chuvisco, este que virou chuva, ríspida, caindo sobre minhas costas. A gota que escorrera no meu rosto não era mais uma lágrima minha, era apenas uma lágrima do céu. Meu mundo mudou, meu olhar emudeceu. Mudei. Atentei-me a um novo fato nessa história que deu mais sentido às explicações para o fim da eternidade: quando você saiu de dentro mim, apenas teve o trabalho de fechar a porta... porque a luz já estava apagada fazia tempo. E isso não me entristeceu, como aconteceria até alguns meses atrás. Creio que esta tenha sido a última vez que perdi tanto tempo divagando sobre isto. O fato é que o lugar está exatamente igual, mas eu estou completamente diferente. Acho que é a barba.

sábado, 30 de junho de 2012

O Sétimo Dia

Hoje eu quero andar descalço, quero dançar pela casa e brincar com meu cachorro, Duque. Hoje quero tomar um açaí, contar histórias sobre a Malásia e fazer algumas pessoas felizes. Quero para hoje umas pizzas, quero amigos, música alta nos ouvidos e mamãe me dizendo o quanto sou especial. Quero tocar bateria, mesmo que sem os pratos. Quero sair de casa, respirar um pouco o mesmo ar que os pássaros respiram ao longo de toda a sua vida. Hoje quero ser feliz, acima de qualquer coisa... Finalmente, esse filho da puta desse sábado chegou!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Três Versões


#1
Não quero mais deixar que se aproximem. Também não estou aqui pra me aproximar. Não vou mais esbarrar meu ego em outras mentes, nem vou mais entregar o que eu tenho de mais precioso, assim, tão facilmente. Não vou mais me abrir, não vou mais compartilhar, compactuar ou ofertar minha alma pra ninguém, não enquanto eu conseguir evitar! E isso não quer dizer que deixarei de lutar: nasci vermelho, cresci em embates, uso Linux!... Só quero dizer que estou fechado para balanço: Ninguém mais me balançará, pelo menos enquanto eu conseguir evitar! Pode-te pensar o que quiser: pense que estou louco, pense que estou bravo, pense que é rancor, dor, amargura, pense o que quiser! Pode até pensar que agora sou do mundo... Não é o que todos dizem? “Agora ele é do mundo!”. Só que não: a verdade é que pela primeira vez em muitos anos, serei meu.

#2
Não vou mais juntar tantas estrelas, quando a intenção for entrega-las a um asteroide. Asteroides estão sempre fugindo... Sempre rasgando o universo em alta velocidade, alta voracidade, alta. Nunca param por aqui. Nunca param. Nunca. Mas e agora? O que farei com todas as estrelas que juntei? Enfiá-la-eis no cu? – Não! Deixareis de herança para o próximo asteroide. Mas será apenas um aluguel, um empréstimo, um improviso. Essas estrelas são minhas agora e apesar de compartilhar todo esse brilho, em seus núcleos ninguém mais irá queimar. Apenas eu.

#3
Não posso mais deixar a porta aberta. Consegue entrar pela janela?

terça-feira, 19 de junho de 2012

Juvenis



Não faz tanto tempo assim.  Pra ser honesto, nada do que vi/vivi faz tanto tempo assim: sou bem jovem. E não estou te sacaneando, caro leitor que já dobrou a esquina do meio século. És tão jovem quanto sou. Se és vivo, és jovem. A vida humana é um lapso. Tudo passa muito – MUITO! – rápido. Se tu que me deténs enquanto texto neste momento já passou dos 60, dos 70, dos 80, alcançou a última marcha e mora em uma casinha ao Sul de Connecticut, estando à muitas milhas do vilarejo onde nasceu, lembre-se: tu és jovem. Se viste a grande guerra, a explosão de Chernobyl, o gol de mão do Maradona e o homem pisando na Lua, és jovem. Se viste o homem PISANDO NA TERRA, és jovem. Claro que não viste o homem pisando na água. Nenhum de nós viu. Somos todos jovens demais para ter visto.  E vamos todos morrer jovens. Meus olhos não vão ver tudo o que me pedem. Minha pele não vai tocar tudo o que me pede. Meu coração não vai sentir tudo o que me pede. Não há tempo para tudo. Morreremos jovens. A tecnologia avança, a medicina descobre a cura para o câncer e então morremos jovens, aos 120 anos. Não há tempo para nada. Valorize o que mais te importa. Dedique-se ao que mais convém. Priorize o que mais lhe faz bem...  porque morrerás jovem, dentro de 150 anos (sabe-se-lá-no-mais-tardar!). De tudo que teu peito clama, escolha três. Se és bom em administração, cabe-lhe quatro ou cinco escolhas... Eu escolhi levar comigo quem eu amo. Não muita gente. Pouco. Pouco. Não me cabe tanto. Não me cabe todos. Escolhi quem merece.  Porque no fim das contas, a única coisa que importa nessa vida são as pessoas. Não importa o seu carro, não importa a sua casa. O seu trabalho, as suas roupas ou o seu tapete-persa, não, não, nada disso importa. Tudo o que importa mora dentro das pessoas. Mas a maioria de nós somos jovens demais pra entender isso.

sábado, 16 de junho de 2012

Dos Dias


Ao novo Sol
as sobras
das sombras
da noite
são rastros.
Os restos
dos astros
da noite
são sombras
das sobras
do Sol.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Noutros Cantos

Andamos pelas ruas deixando um pouco de nós em cada esquina da cidade. Explico-me desde já: em algum canto daquele lugar há muito tempo não frequentado, existe um pouco de si. Deixaste-te lá! 

Lembro-me do verão de 2009: o parque, as árvores, o cão-amigo. Ainda me sinto lá. Há um pouco de mim depositado naqueles bancos, naqueles becos, naqueles cantos. 

Porém, o tempo engole os dias e apesar de termos esparramando-nos em cada rua que passamos, tudo não passa de uma eterna reminiscência. 

No parque, os pássaros cantavam, quase que comigo. Hoje, busco esparramar-me noutros cantos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Guarda-chuva

Lá fora, o mundo cai em chuva e vento. Nas ruas, formam-se as poças, enchem-se os boeiros em pouco tempo. O lacrimejar dos anjos sobre meu rebento. É triste, é bonito, estranho e fantástico o que ostento. Mas não sou prosa, não sou poesia. Sou só um passatempo! Lá fora, a água seca, molha todo o pavimento. Há patas de um homem ou outro bicho, marcadas no cimento. O pedreiro que não pode consertar, a massa que não pode se secar, a brincadeira de Deus sobre os paradoxos do mundo, lento.  Lá fora, o céu despeja frias gotas em seu quase vitalício estado, cinzento. E se molhar pode ser inevitável... Mas se molhar enfim, a gente seca, alento! Não é problema, nem solução. Nem prosa, nem poesia... lamento. Lá fora, o sol desdobra o pensamento: está aqui, sim, mas onde está o aquecimento? Lá fora, gotas caem a quase todo momento. Mas quer saber? Lá fora, deixa chover... Só não deixe chover dentro de você. Não permita, não padeça!  E se ainda assim a tempestade  insistir em invadir a tua sala ou o teu quarto, eu entendo... Meu segundo nome é guarda-chuva e eu deixo você morar aqui dentro.

domingo, 3 de junho de 2012

Intervalo

Dentre os velhos ventos
frios da manhã
e os prantos,
gritos,
cantos,
novos,
gélidos do fim da tarde
por enquanto
envolto aos planos
encontro meu encanto
em intervalo

A mente mente paralelamente
em egocêntrico momento
do quase sempre
altruísta elemento
que isento de lamentos
busca paz.
Solidão
e nada mais.

Dentre as dores de mim ontem
e as cores,
flores
e amores
quase sempre
sem controle de outrora,
vagueio encanto
enquanto canto
devaneios
no intervalo.

O mundo imundo muda
e brinca de ser Sol
e finge que é surdo
num silêncio uniforme
que envolve esta canção

Mas o sino soa.

sábado, 3 de março de 2012

Ocaso

Você pode limpar sua casa, tirar o cocô do seu quintal e encerar o carro da sua irmã, enquanto a noite não chegar. Você pode mexer na antena de sua TV e gritar de lá de cima: "E agora, ficou bom?", mas só enquanto a noite não chegar. Você pode pintar ornamentos nas bordas das paredes, aqueles pequenos cujo há notável dificuldade em enxergá-los, mas experimente tirá-los que verás fácil a diferença. Sim, você pode, mas só enquanto a noite não chegar. Você pode explorar o mato do terreno baldio ao lado da sua casa, apenas por aventura, apenas por diversão. Você se sentiria melhor em meio aos pássaros e as quaresmeiras de fevereiro. Mas poderá enquanto a noite não regressa, apenas. Você pode soltar pipa com  os pequenos seres ou fazer-lhes um carrinho de rolimã, enquanto a noite não chegar. Você pode consertar aquele velho banco que sentarás há muito tempo atrás, dentre outras coisas mais, hoje oblíquas às tuas vontades, mas pode apenas enquanto a noite não chegar. Podes consertar-te, mas algo diz-me que não vais. Impiedosa, a noite nunca tarda a tardar-se. De mãos limpas, depois de um longo dia, deitarei no piso limpo de meu quintal e observarei pela última vez as lindas estrelas do fim deste verão.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O Lado Negro do Oceano

Muitas vezes a dor vem e é inevitável. Normalmente, as piores vem de dentro pra fora, ardentes, rasgantes.  Muitas vezes os motivos não são oriundos dos nossos próprios organismos. Percebemos que a dor apenas mora dentro de nós, mas na realidade a razão está fora. Muitas vezes a dor é reflexo de um sentimento bom, por que não? Um sentimento tão maravilhoso e tão grande, que se houvesse uma escala para medir essas unidades, provavelmente este sentimento ultrapassaria a nota máxima, daria a volta nos ponteiros, estagnando-se na nota mínima. É nesse ponto que a dor começa. Muitas vezes temos medo de sentir a dor, tal qual criança que conhece a injeção. Mas a injeção às vezes pode salvar sua vida, o que faz o período de dor ser um mal necessário, muitas vezes esquecido, inclusive. Ás vezes a dor é um alerta - do nosso corpo ou da nossa alma - para que nós consigamos identificar algo errado e corrigi-lo. É nesse ponto em que você deve buscar refúgio. É nesse ponto em que você deve encontrar remédios. É nesse ponto em que você deve fugir de casa ou da vida que te levas. É nesse ponto em que você deve voltar a levar a vida. Fazer aquele banquete a muito tempo anunciado. Ir para aquele lugar em que já tanto foi chamado. Conversar com aquelas pessoas que quase sempre lhe deixam recado. Tomar aquele banho de mar, em águas turvas e misteriosas, às quais você nunca imaginou que um dia colocar-se-ia a molhar-se. É nesse ponto em que você deve se molhar. É nesse ponto em que você deve deixar que a água e o sal salvem sua pele, anestesiem seu corpo, enganem sua alma. É nesse ponto em que me encontro. Navegar é preciso.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Microfonia

Parte escreve
e parte outra
empunha a guitarra
que em seu ápice de distorção
e igualmente em coração
fiel reflete
o que dentro cá me cabe.

A microfonia,
densa,
inevitável à esquina
em meus acordes,
tensos,
que acordam objeto
em dor e paz
um pranto a mais
que jamais se sabe.

A sintonia
penso
pesa
pensionando-se
á este encanto.
Enquanto canta
minha guitarra ama
e clama
pra que o solo
nunca acabe.

Mas parte em mim
que parte enfim
somente espera
que me livre de ser solo
e me transforme em base.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Pseudonos de Mim

E muitos momentos na vida, não somos nós que escolhemos como vamos nos sentir, ou o que devemos fazer, ou à quem devemos reportar. Em fato, quase sempre não temos poder algum sequer. Mas em parcas vezes, temos sim, direito de escolher um rumo, ou guinar nossos dias e nossas vidas para a direção que melhor convém. Estou na bifurcação, neste exato momento. Pra ser sincero, este ponto da estrada sinuosa está mais para entroncamento oblíquo.

Eu posso lhe deixar, eu posso lhe trocar, eu posso ser feliz, eu posso sossegar. Eu posso aprender, eu posso respeitar, eu posso me entreter e achar alguém para amar. Eu sei disso. Sei disso tudo. Vocês não precisam ficar me dizendo, tal qual oradores da auto-ajuda fétida que os detém. Vocês não precisam nem sequer chegar perto de mim se não quiserem, porque sempre soubemos que há dentro de mim um monstro ou um morcego, não muito gentil e agradável. Estou farto de saber que eu poderia dar um próximo passo e que este seria o melhor pra mim. Vocês não sabem de nada.

Eu poderia mesmo seguir em frente. Mas eu não quero. Eu quero alastrar o meu passado até o meu futuro, até o último suspiro e a última batida deste gélido pequeno coração que vos escreve. Eu quero tornar os planos e sonhos na mais linda realidade, porque não fui criado pra ser meio homem que abandona o barco. Eu quero te tornar a pessoa mais feliz do mundo, pois foi Deus quem me deu essa ordem e ele foi muito claro e franco enquanto ordenava.

Só não foi mais franco do que eu, falando agora para todos aqueles que estão fugindo do destino que um dia vossas almas escolheram: covardes.

Vulnerável sou, mas enquanto viver, brilharei.

Enquanto Minha Guitarra Gritar em Lá Menor

Eu não me importo muito com o sal... no oceano, é da imensidão que tenho medo. Desde pequeno fui amestrado à tomar conta dos pensamentos grandes, visando principalmente não pensa-los, para que os humanos mais experientes não me confundissem com um louco efebo. Mas sempre tive pensamentos imensos, intensos, isentos, dos quais muitos compõem-me até hoje. Infelizmente, meu pânico por ser louco impediu-me de expandi-los ainda mais nessa longa estrada que é a vida e portanto os guardei em mim.

Mas Deus fez o oceano. E não o guardou em si. E não costuma ser louco.

Enquanto minha guitarra gritar em Lá Menor, sonharei com o infinito colorido que me aguarda.

Ou serei louco, mas algo serei.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Noturna

Vossa voz
voa em mim
e espreita o amanhecer!

Se meu Sol ainda repousa
pousa-me em veloz lampejo
as claras fantasias dos dias.

E em cada dia, mais reais,
mesmo que falsas
as mentiras ideais.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Anjo da Música

Hoje
sou fantasma 
em tua ópera.
É hora de abaixar cortinas, 
deixar coxias, 
fechar portas 
do teatro, triste. 
O espetáculo acabou.

A Escada de Incêndio

Você sabe a grande diferença entre uma criança normal e uma criança grande? A diferença é que, quando criança comum se machuca, normalmente seu sangue escorre para fora, enquanto quando é a criança grande que se fere, é para dentro que lhe escorre este sangue. Desde que tenho tamanho o bastante para ferir-me internamente, aprendi a cultivar meu coração dentro de uma casinha de madeira, pacata, confortável, aquecida. Sabe-se naturalmente que é preciso dar-lhe segurança, vez que falamos do bem mais precioso de cada vida humana. Interessante é que esta casinha pode parecer-te apertada, mas nela é possível guardar coisas gigantes! Você já possui uma casinha dessas? Pois bem... Meu coração não é dos maiores, mas tenha certeza de que é dos mais bagunceiros: precisa de muito espaço no quarto e - não obstante - um closet somente para a coleção de artérias e sapatos. És um coração eufórico este meu, moldado quase que totalmente à mão, ao longo destes anos todos. És um coração contente e um tanto quanto irônico ás vezes. És um pouco recluso, admite-se, tanto que muitas vezes tende-se à solidão, mas isso normalmente é passageiro. És um coração esperto algumas vezes, posto que um dia foi capaz de conquistar coisas grandes, nalgumas vezes gigantes, diria. Mas é uma pena que o que lhe cabe em esperteza, cabe-lhe igualmente em burrice! Noutro dia deste verão frio, pensou em acender a lareira. Faísca para lá, faísca para cá, heis que a casinha - DE MADEIRA, ANTA! - pôs-se a transar com o fogo. E o fogo, ardente à madrugada, alastrou-se rapidamente. E em prantos, a vívida casinha passou a ser menor à cada instante. E os pulmões mandaram ventos e ventanias, e os rins mandaram chuvas e tempestades, e o cérebro até tentava lançar ali a sabedoria... mas nada disso surtiria efeito, a menos que houvesse sangue para tal. E o sangue estava todo dentro da casinha, junto ao fogo e ao coração. No imóvel havia uma escada de incêndio. Sorte para alguns. Mas francamente, gostaria que não houvesse. Gostaria mesmo. Isso porque aquele coração, em fato, não era meu... era seu! Mas ele foi embora. Fugou-se pela tal escada.

Pode ter salvado sua vida, saindo de lá apenas com alguns hematomas e escoriações adicionais, o que obviamente me deixa muito contente em parte. Mas antes tivesse sido forte o bastante para lutar até o fim ou deixar-se queimar naquela casa, como eu lutei. Como eu queimei. Como eu morri. Resta-me agora, sozinho, ressurgir das cinzas. Tal qual fênix, redescobrindo velhos sonhos como se nunca os tivesse conhecido. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Capitu

- Eu vou guardar seu coração numa caixinha!
- Então, quando eu for no médico ele vai ouvir meu coração e se deparar com um vazio! Você vai ter entrar no médico comigo, com a caixinha, pra ele poder examinar...
- É verdade! Senão ele vai pensar que é um milagre, ou algo parecido.
- Ele vai me mandar pro IML, isso sim... Ele vai dizer "O seu lugar é no cemitério, alguém já te avisou?".
- IML... Vão me prender. Porque eu roubei seu coração.
- Sim, vão te prender. Você invadiu minha vida. E você me levou embora aquilo que levei meses pra reconstruir. A parte mais valiosa do meu corpo.

Atrás de Mais Bebida

Rua fria na boca da madrugada.

Senti-me mal.

Tinha esse cachorro, ele estava machucado.

Não sei se foi por briga ou se foi atropelado.

Tinha esse senhor, ele estava machucado.

Não sei se foi abandonado ou se quis abandonar-se.

Não sei  também, quem zelava quem.

Mas eles não estavam sozinhos.

Senti-me bem.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Terra e Pedra

Sob a água
que os olhares
destas nuvens
derramavam,
pus-te em mãos
sobre um chão
de terra e pedra.

Empedrado
à pleno ar
em meu olhar
nascia ali
um cantar
que ladrava
o infinito.

Enterrado,
junto a mim:

Assim será
o que oriundo
em coração
- de carne e sangue -
quando este
entorpecer
o seu bater.

E no tronco
de uma vida
estatizada
estagnamos
nossos nomes
nessa parte
de ninguém.

E nos sonhos
e sorrisos
que almejamos
a euforia
por aí
e aqui também.

Em terra e pedra
que pisamos
concluímos
tantos planos
deste mundo
que nos tem.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Olhos Fechados

Você consegue ver a minha mão tocando a sua ou meu olhar esbarrar o teu, quando está de olhos fechados? Você consegue ouvir a minha voz ecoar ao vento ou os pássaros daquele parque, quando está de olhos fechados? Pense em um momento em que sua vida era completa, a família, os amigos, o amor. Pense no ambiente que te rodeava, nas frases ditas, algumas doces, outras bravas. Pense nas piadas, nas risadas, nas mãos diversas movimentando-se por sobre a mesa do carteado. Pense na pessoa mais perfeita da sua vida. Agora feche os olhos.

Você consegue sentir as nossas almas no espaço, os nossos sonhos ao acaso, quando está de olhos fechados? Você pode entender a razão pela qual somos nós os escolhidos pelo destino quando está de olhos fechados? Pense em como seria o dia mais feliz de sua existência. Pense na situação em que tudo se daria, nos motivos que você teria pra sorrir. Pense num lugar onde você se sentiria em segurança. Em um lugar onde o que é feio pode se tornar lindo. Pense como você faria para construir esse lugar... usaria mel ou chocolate? Pense na pessoa com quem você gostaria de compartilhar essa vida. Mantenha um pouco os olhos fechados.

Você consegue ver o meu sorriso aleatório, meu cabelo bagunçado de manhã, quando está de olhos fechados? O meu lado do colchão está vazio... estamos os dois no seu lado, consegue ver? Você consegue medir o impossível, contar o infinito e segurar o universo, quando está de olhos fechados?

Eu consigo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O Sentido da Vida

- Não existe nada material nesse mundo, que o dinheiro não possa comprar.
- Como não? Aposto que não há um preço definido para um foguete, tipo aqueles ônibus espaciais americanos!
-  42 milhões de dólares. Foi esse o preço pago pelo Discovery em 2008.
- Sabichona... o que me diz então de um estádio de futebol? Você nem entende de futebol!
- Tem razão, odeio futebol. E odeio o Corinthians! Mas sei que o estádio olímpico de Londres está à venda. Tem 35 milhões de libras sobrando aí? Pois é esse o preço que vale!
- Uau, não sabia.
- Eu sei!
- Tudo bem, tudo bem. Quanto custa uma ilha?
- A do Schumacher custou 7 milhões de dólares. Tem algumas mais caras!
- E um trem bala?
- 33,1 milhões de reais.
- Trono de ouro do papa?
- 26 milhões de dólares.
- Um dragão?
- O de Komodo tem na internet, custa 200 pratas!
- O significado da vida?
- Ok, você apelou, estávamos falando de coisas materiais!
- Desculpe.
- Mas pra sua informação, em 2007 o sentido da vida foi leiloado no ebay, e arrematado por 10 dólares e 50 centavos!
- Que loucura.
- Nem tanto. O dinheiro compra tudo.
- Nem tudo. O dinheiro não compra o amor.
- Você está apelando de novo. O amor não é matéria. E nem tem no ebay!
- Como ousa dizer que o amor não é matéria? O amor é matéria sim! Pelo menos o que sinto por você. Ele está aqui, comigo, preso à mim. Ele ocupa um grande espaço na minha vida, espaço este que jamais poderá ser ocupado por outra coisa qualquer. E a maior prova de que este amor é matéria, é que quando você foi embora e o levou para longe, tudo o que sobrou em mim foi um imenso vazio.