quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Hora Sagrada

Ele era skatista, mas tinha um desses empregos chatos também, de terno e tals. Ela era preparadora. Não importa agora o quê, mas ela era quem preparava. Ele gostava de chinelo, bife com batatas e era um profundo admirador dos violões de 12 cordas, embora nunca tivera a chance de portar um. Ela era fã de baseball, principalmente dos Linkers, time do quarto estágio da liga australiana. Tinham maneiras bem diferidas de ver o mundo, mas amavam a hora do almoço, pois sempre passavam juntos! Ele trabalhava à 15 minutos do prédio onde ela era empregada. Nesse prédio, dito com mais precisão - no térreo, havia um restaurante nem muito luxado, nem muito boqueta: perfeito! Ali eles almoçavam, todos os dias... todos os dias... todos os dias. Para que tal se realizasse, ele solicitou ao seu chefe meia hora a mais de pausa, todos os dias: gastava 15 para ir, 15 para voltar. O fazia com prazer, para encontrá-la, que ao badalar da metade do dia, o esperava com afinco. 11h45, portanto, era o horário dele. E assim era a rotina, sendo dela o almoço a melhor parte do dia, para ambos. Eram vidas legais! Ele podia até ser bom no trampo do terno e tals, mas temos que admitir, ela era uma excelente preparadora! Ninguém preparava melhor do que a bela jovem, que continuava à estalar as mãos na massa para preparar cada dia melhor. Resultado: foi promovida à Diretora de Preparação! Cargo alto, nobre.  Mas infelizmente, por essa razão, teve ela de ser movida de sede: passaria a operar a preparação lá da matriz, na capital. Era longe, bem longe daquele pequeno e feliz restaurante. Ok, vou ser franco: era como daqui ao Novo México. Ele, apesar de imensamente feliz por sua conquista profissional, chorara por dentro ao pensar no fim da era dos almoços! Foi com imensa dor que o rapaz solicitou à patronada a revogação de sua meia hora adicional. Foi com dor maior ainda que ele conversará com a moça ao telefone, pouco antes daquele que seria seu primeiro almoço em solidão. Enquanto ela cantava o quanto estava contente com a nova oportunidade, ele guardara em si um sentimento de saudade prévia. Ela salientara que algumas de suas exigências para aceitar o cargo foram devidamente cumpridas e que aquilo ali era o paraíso para ela, enquanto ele não conseguia se enxergar escolhendo o combo número dois com suco laranja no lugar do refrigerante, sem a presença dela à compartilhar. E assim, o badalar da metade do dia chegou: hora do lanche. Eles ainda se falavam – graças a linda telefonia móvel - no corredor, alento à insatisfações, ele murmurava pra si: isso vai ser um porre. O elevador, que tocava João Gilberto, descia e subia, transportando a solidão, que o moço sustentava em seus olhos, apesar de seus ouvidos não deixarem de ouvir a voz da pequena. Foram 8 andares até o térreo sem que ela parasse de contar seus benefícios. A porta do elevador se abriu, e veja só a surpresa: seus olhos se tocaram.

- Ah! Faltou-me dizer antes: consegui 2 horas e meia de almoço. – só então ela encerrou a chamada.