quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O Ruído

- Tenho escutado sempre o mesmo ruído, um barulho estranho, provavelmente oriundo da cozinha ou do computador. Às vezes desperto de meu sono pela noite. Às vezes, escorro dos meus sonhos. Às vezes inclusive penso que esse som faz parte de minhas jornadas noturnas, mas quando dou-me conta, ele está aqui fora - na realidade - à me acordar e me perseguir. Outro dia eu estava feliz: ouvia música clássica, conversava alegremente. Mas de repente quando boto redobrada atenção ao meu redor, lá está ele, o barulho. Isso acabou com meu humor. E apesar de nalgumas ocasiões ser-me eu capaz de me desvincilhar dele, trata-se de um assombroso ruído. Tenho medo. E na maioria das vezes, não há ninguém comigo. Tira-me o sono toda noite, tira-me a vida, toda vida. Todavia, permaneço. Assustado, atrás do muro, permaneço. Procuro nos olhares e pilares, atrás dos móveis, atrás das cores, atrás das dores. Perco horas do meu dia a procurar a verdadeira origem desse tal ruído. Quero arrancar-lhe as pilhas ou tirá-lo da tomada. Quero ter uma boa noite de sono novamente.

- Relaxa, é apenas um barulho na cozinha ou no computador.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Hora Sagrada

Ele era skatista, mas tinha um desses empregos chatos também, de terno e tals. Ela era preparadora. Não importa agora o quê, mas ela era quem preparava. Ele gostava de chinelo, bife com batatas e era um profundo admirador dos violões de 12 cordas, embora nunca tivera a chance de portar um. Ela era fã de baseball, principalmente dos Linkers, time do quarto estágio da liga australiana. Tinham maneiras bem diferidas de ver o mundo, mas amavam a hora do almoço, pois sempre passavam juntos! Ele trabalhava à 15 minutos do prédio onde ela era empregada. Nesse prédio, dito com mais precisão - no térreo, havia um restaurante nem muito luxado, nem muito boqueta: perfeito! Ali eles almoçavam, todos os dias... todos os dias... todos os dias. Para que tal se realizasse, ele solicitou ao seu chefe meia hora a mais de pausa, todos os dias: gastava 15 para ir, 15 para voltar. O fazia com prazer, para encontrá-la, que ao badalar da metade do dia, o esperava com afinco. 11h45, portanto, era o horário dele. E assim era a rotina, sendo dela o almoço a melhor parte do dia, para ambos. Eram vidas legais! Ele podia até ser bom no trampo do terno e tals, mas temos que admitir, ela era uma excelente preparadora! Ninguém preparava melhor do que a bela jovem, que continuava à estalar as mãos na massa para preparar cada dia melhor. Resultado: foi promovida à Diretora de Preparação! Cargo alto, nobre.  Mas infelizmente, por essa razão, teve ela de ser movida de sede: passaria a operar a preparação lá da matriz, na capital. Era longe, bem longe daquele pequeno e feliz restaurante. Ok, vou ser franco: era como daqui ao Novo México. Ele, apesar de imensamente feliz por sua conquista profissional, chorara por dentro ao pensar no fim da era dos almoços! Foi com imensa dor que o rapaz solicitou à patronada a revogação de sua meia hora adicional. Foi com dor maior ainda que ele conversará com a moça ao telefone, pouco antes daquele que seria seu primeiro almoço em solidão. Enquanto ela cantava o quanto estava contente com a nova oportunidade, ele guardara em si um sentimento de saudade prévia. Ela salientara que algumas de suas exigências para aceitar o cargo foram devidamente cumpridas e que aquilo ali era o paraíso para ela, enquanto ele não conseguia se enxergar escolhendo o combo número dois com suco laranja no lugar do refrigerante, sem a presença dela à compartilhar. E assim, o badalar da metade do dia chegou: hora do lanche. Eles ainda se falavam – graças a linda telefonia móvel - no corredor, alento à insatisfações, ele murmurava pra si: isso vai ser um porre. O elevador, que tocava João Gilberto, descia e subia, transportando a solidão, que o moço sustentava em seus olhos, apesar de seus ouvidos não deixarem de ouvir a voz da pequena. Foram 8 andares até o térreo sem que ela parasse de contar seus benefícios. A porta do elevador se abriu, e veja só a surpresa: seus olhos se tocaram.

- Ah! Faltou-me dizer antes: consegui 2 horas e meia de almoço. – só então ela encerrou a chamada.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Acordes

As gotas frias matutinas
ainda pairavam entre nós
e no princípio da jornada
rotineira à madrugada
eu vi um pássaro
à passar-me sua voz:
acordes.

Naquele canto
residia
todo encanto
que eu queria
pra buscar
em melodias
novas notas:
acordes...

E pela estrada que seguira
com destino demarcado
em minha face via a brisa,
o brio breu abria a cara
enquanto o vento assobiara:
acordes, acordes e acordes

Quando cheguei
em tua sacada
ainda o frio
ali pairava.
No fim do escuro,
quase de dia
uma pedrinha
resvalava
em tua janela,
enquanto à espera
lá de baixo
eu gritava:
- Acordes!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Entre o Escudo e a Espada

Sempre imaginei que minha alma fosse um bem precioso, que precisasse de cuidados extras. Pensava que era necessário proteger-me dos monstros, dos dias frios, dos assaltantes, dos hackers. Busquei no além, maneiras de esconder-me, atrás das paredes, atrás de minha própria sombra, seguindo-me. Instalei à minha frente um dispositivo de defesa, comprei novos cadeados, chaves, fechaduras... troquei os portões inclusive. Vaguei meus olhos sobre as turvas águas da chuva na cidade grande e visitei a idade média: descobri que eficientes mesmos eram as armaduras gladiais. Comprei um escudo.  Duro, robusto, completo em ouro e madeira, este que porfiara, aguentara durante bastante tempo, resistindo batalhas e muralhas. Inibiu ataques de bispos e peões, torres e cavalos, reis e rainhas. E o fogo que jorrava na madeira, acabava apagando-se simetricamente no vão entre as palavras e os silêncios... como se silêncio fosse mais do que um.

O fato é que hoje dei-me conta de que, por mais que tenha sido útil por um tempo, na realidade essa foi uma aquisição desnecessária: o único escudo pra minha alma, sou eu.

sábado, 13 de agosto de 2011

Firewall

Hoje pela manha, vi-me transeunte em meus pensares. Matutara alguns porquês, dos quais parte ainda não ostentam nem um 'porque sim' ou 'porque não' como resposta. Estático, permaneci sob lençóis. A verdade  é que não me cabe ideia em mente, um bom motivo para cada ser humano criar um forte exército - como um firewall - findando proteger-se. E se não bastasse, logo após, eles discutem entre si quem fez o melhor exército, o mais forte. Quem está mais capacitado para suportar um bombardeio, ou para bombardear. E as discussões acirram, e os nervos enervam-se, e bombas caem. Mas e os inocentes? Você devia saber que em cada ser humano, há sempre um lado militar, mas há também um outro lado, o civil. E devia saber também que morrendo um, morre também o outro... As pessoas não entendem essas e outras coisas que me deixam profundamente entristecido. Dentre as quais, fato cá e fato lá: só existe guerra, porque existe arma. Quisera eu ou os ameríndios do oeste, que o revólver nunca fosse inventado. Quisera eu ou Einstein que o urânio nunca tivesse sido usado para alimentar a radioatividade em uma bomba nuclear. Quisera eu ou os Judeus que a intolerância nunca tivesse oportunidade de empunhar um alto calibre. Por isso clamo à cada animal humano: desarme-se. Pode-te ser alguém forte com o escudo que tens fronte à alma, mas creio que a física dos dias não tenha-lhe sido clara: escudos bloqueiam a luz! Vulnerável sou, mas enquanto viver, brilharei.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Não coma na chuva

Cuidado com sapatos verdes. Se seu relógio estiver abaixado, jogue três limões no caderno. Pegue uma panela e enterre abaixo do lustre, sob as pétalas amarelas do avião de Bill Clinton. Acrescente em si três colheres de cordas para violão-celo. O que sobrar pode pegar pra você, não vou usar. Toda escada tem passaporte, todo mercado tem saco plástico. Se ontem a noite estava fria, sinal de que formigas também cantam "My Way". Se todos os trens forem pra marte, seu cabelo cairá. Se os gnomos souberem irlandês, fodeu. Talvez uma garota passe lá pelas 11h no prédio do seu tio e você não saberá qual botão apertar. Esteja sempre atento aos cogumelos. Pássaros ainda não falam pra evitar transito hospitalar. Cachorros são melhores do que gilós, pois da janela eles entendem. Sorvete de flocos serve pra abrir gavetas quando o camundongo não souber onde deixou as chaves do ônibus. Se os ingressos estão no seu bolso, dirija-se ao poupatempo. Se o 18° à esquerda estiver de olhos abertos, bata três vezes com a cabeça na parede. Se o vidro estiver embaçado, ao mesmo tempo que o macaco Jones cantar o hino de Alemanha numa sexta-feira ímpar, quebre três galhos de pessegueira. Quando o fio de cobre voltar pra casa, compre Muffins. Depois disso, digite três para falar com um de nossos atendentes. Camelos também têm rins. Ao avistar Cabo Frio, esquente-o. Leve seus dedos ao fogo até dourar. O próximo celular que você comprar vai gostar de feijão rosa. Pés tem pulgas. Talvez seja a hora certa de voltar pra frente, sair pra dentro e subir pra baixo. CDs substituem torres. Meu primo é louro azul. Araras se arrepiam quando gotas caem. Você é mais alto que duas almas, porém mais baixo que uma só. Se todas as informações acima forem verdadeiras ou não, tanto faz. O amor é uma coisa louca. Adquira já o seu.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Supernova

A metrópole é o turbilhão da vida. Não por ventura das horas cálidas do dia, extasie-me por conta própria. Quarto andar. Janela. Bem ao fim do horizonte, avistei um helicóptero dos mais velozes à perfurar a atmosfera, rasante cheio de razão. Enquanto a imensa ave mecânica rasgava o céu, coloque-me lá. Imaginei-me voando, ali dentro daquela caixa - pesada e metálica. Naquele instante, minha janela deixou de ser no quarto andar e passou a ser livre aos ares, passou a voar! E confesso, o céu é lindo e deixa a terra mais linda ainda vista lá de cima. As pessoas aformigadas, os prédios arborizados, os carros acarrapatados. Silêncio, fluidez. A unica voz, é a de Deus. Voar é uma maravilha.

Quando em cima, avistei às flores, mínimas, porém de intensa coloração. Imaginei-me abelha. Reduzi-me em matéria, mas não em alma. Adentrei um jardim. Naquele instante, minha janela deixou de ter os grandes céus e passou a cultivar paisagens um pouco mais baixas, um tanto mais ricas. Quando se és abelha, pode-te ser pequeno, porém pode-te ser gigante! É possível fazer acontecer: polinizei copos de leite, sem derramar uma única gota de esperança.  E a natureza é fantástica, e o processo da vida é inacreditável e isso e aquilo.

Enquanto sabiamente planeava das mais nobres pétalas, na melodia das sagazes asas de abelha, espreitei o astro rei: quis-me mais, muito maior. Quis-me quente. Quis-me  luz. Quis-me. Tornei-me então Sol, convidado especial de minha história. Naquele instante, minha janela deixou de ter pequenas paisagens e passou a vigiar o espaço todo. E a vigília - para quais imaginam tédio - foi esplendorosa, com todos os esplendores que um estrela pode propiciar. Em supernova clareei o imenso vago, tal qual deserto sem areia, tal qual oceano sem água. Em supernova clareei o estômago, que em prantos clamava pelo amor da vida. Em supernova, clareei de longe dois pequenos olhos. Esses olhos mansos refletiram minha luz e se tornaram os novos sóis.

Ao deparar-me com tamanha emancipação de luz e calor, abandonei o plano de ser Sol. Quis ser qualquer coisa, qualquer coisa capaz de se locomover. Tudo o que eu queria era encontrar esses olhos. Saí correndo, com as pernas batendo a gravidade, pulando de planeta em planeta. Cá cheguei de novo. Cá virei abelha, cá virei piloto e enfim virei-me. Naquele instante, minha janela voltou ao quarto andar.

A diferença agora é que - você pode não ter sentido, mas eu estive com você.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ingrato

Tenho profunda sede das regalias que nunca tive. 

Espreito o experimento 
de algo que não vivo, 
buscando tópico utópico 
de brio canto que jamais terei. 

Ostento da janela 
o caminhar das aves 
sob as nuvens de um céu 
que não me tens. 

Esqueço-me 
do patamar 
em que me encontro, 
alto, 
vasto, 
claro encanto, 
por conquistas 
que hoje tenho 
e que daqui 
sempre terei. 

Sou bicho homem,
ser humano
e sendo humano
o que me faço
é ambicionar
o amanhecer.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Pequenas Diretrizes Para o Ego Ferido

Se o mundo quer que você conheça a apatia e abuso de soberba, tais quais descritas em 1984, faça-os conhecer o poder do sorriso. Se eles querem que o frio absoluto de um admirável novo mundo toque sua pele, compre um casaquinho bem legal, aqueça-se. Compre também um casaquinho pra quem você gosta, nunca se sabe quando a próxima tormenta virá. Se os malucos te acham maluco, vista sua camisa de força e finja estar louco, mas deixe sempre a parte de trás aberta, pra você escapar de vez em quando da sanidade e ficar realmente louco. Se a força te convida para baixo, bata asas, voe. Se às asas estiverem machucadas, passe Merthiolate. Pode passar sem medo, agora não arde. E enquanto a asa não melhora, poxa, pleno século XXI: voe de mochila à jato. E se você se sentir sozinho, lembre-se do poder de sua própria voz... Grite. Grite bem alto. Nunca pare de gritar. Qualquer dia desses um anjo lá no céu poderá te escutar. Ele te fará companhia.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Dizeres

Você diz que precisamos de leveza pra conseguir flutuar de novo. Diz que precisamos ser livres pra bater nossas asas. Às vezes você diz que quer me ter por perto, mas ao mesmo tempo não quer me ter ao certo. Você diz que a vida é difícil e que as coisas mudam. Você diz que ainda quer ter diamantes no céu, quer sonhar e quer se perder, mas na realidade luta piamente pra se encontrar. Você não sabe o que sente, mas sabe o que quer sentir e ainda assim não sente. Você diz que quer viver, mas tem medo de conhecer o que a vida lhe traz. Você diz que quer casar, crescer, amar. Você diz que tem medo de não conseguir. Você diz um montão de coisas...

Você diz que conheceu alguém que pode balançar seu mundo, mas acha que não pode balançar o mundo dele. Saiba você que és plenamente capaz de balançar o mundo que quiser, embora eu não quero que você saiba por aí balançando mundos porque já conseguiu mudar o eixo do meu. Você diz que queria que aquela noite durasse pra sempre, enquanto as nossas noites foram passageiras, mas na realidade rastros das nossas velhas noites se alastram pelas horas que vivemos ainda hoje... basta prestar atenção. Você diz que está disposta à tentar, o que faz parte de uma série de itens necessários pra felicidade, mas você ainda não percebeu que o simples fato de tentar, já implica automaticamente em conseguir. Você diz que não tem planos, você diz que não quer papo, você diz que quer seus sonhos e ao mesmo tempo quer sapatos. Você diz um montão de coisas...

Você diz que quer voar, mas tem medo de tirar os pés do chão. Eu te digo que você pode, basta confiar em mim e me dar sua mão. Você diz que quer ir devagar, e por isso estamos no nosso terceiro-segundo encontro, eu te digo que o meu amigo tempo é capaz de me fazer voltar por ele quantas vezes necessárias forem. Você diz que está do meu lado, eu digo que estou em você. Você diz que se lembra de uma noite, enquanto eu me lembro de uma vida. Você diz que precisa se amar acima de tudo e eu digo que ME amo tanto que estou pronto pra amar você acima de tudo também. Você diz que acredita no destino, no que tem que ser e no que tem muita força enquanto eu apenas concordo com a cabeça, sem dizer uma só palavra. Você disse que é capaz de ver os olhos dele no escuro, eu digo - E SEMPRE DISSE - que sou capaz de ver os seus à distância, em qualquer lugar do mundo em que eu esteja. Você diz que está se conhecendo e eu digo, "posso conhecer você também?". Você diz que quer as roupas nas vitrines, quer a música, a magia e o poder. Você diz que tem medo de se perder. Você diz um montão de coisas... 

Você diz que tem problemas, diz que é estranha e chata. Você diz que é intensa, que chora fácil e que às vezes tem saudades. Você diz que não consegue, mas diz também que se desespera ao pensar que eu vou embora. Você diz que me ama, mas não sabe se pode dizer ou não. E então você não diz, na realidade. Você diz que a tal da leveza é pra compensar os problemas do mundo. Você diz que tem mais problemas que o mundo. Você diz que para o mundo você é gorda e feia. Mas quer saber o que eu digo? Eu digo que pra mim, você é o mundo. Eu digo que meu mundo respira você. É o que eu digo.

Mas você diz um montão de coisas...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Aviso

Certa vez,
num muro a eito
envolto ao sonho
de um castelo
que vivi
li o aviso
e transiente
inatento
ao próprio sonho,
intento plano
me perdi.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Cais

Inverno,
Descanso das sementes.

Há-me
monstros latentes
asa em serpentes
consumindo
a bordas do cais.

Prende-se em meu corpo
tal como fosse porto,
dois navios a beira-mar:

O menor monstro
fome tem
e se alimenta
em cada mágoa.

O maior monstro
sede tem
e necessita
tua água.

Nas mágoas da estação
- amargas!
pequeno barco virou

Ás águas do teu mar
- salgadas!
grande barco zarpou

E se meu cais tivesse céu
tal como teve noutro dia
em outro inverno, em outro inferno
punha às asas das serpentes
em meus dois monstros latentes
velho poder que já perdi

acredito friamente
em uma estação quente
voltando a se instalar

um dia desses
ao olhares pra lua
notarás em tua retina
dois navios a flutuar.

a conquista
do meu sonho
não termina
quando morre
uma asa
em minhas costas

há reserva
nos galpões
dos dois monstros
que crio
em realidades
opostas

domingo, 3 de julho de 2011

Submarino

Prantos de uma noite fria
faz de toda estrada
ensopada em tempestade
por além desta janela.

Passa-me ideia em mente
de assim sair por sob as águas
tal como um boto no teu mar
tal qual semente ao seu plantar
assim serei

submarino-me em ti
sob suas asas à planar
misturo o céu, misturo o mar.
submarino sou
e assim serei
até o fim dos prantos,
devido fim dos planos
permeio por toda estrada
à tempestade
que contesta meu contexto
difícil meio
que se acaba
horas pós,
quando em novo dia
meu sol voltar a ser
o astro rei das profundezas.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Em nome dos loucos...

Não sou dono de mim. Não tenho em mãos os controles que destinam meus passos. Há-me um monstro ou ser maior à conduzir-me da luz pura ao árduo fogo. É triste... prefiro não ter razão. No dia anterior via-se em meus olhos réstias de esperança. Senti-me capaz de mudar o mundo. Senti-me capaz de deitar e dormir. Durante pingos de horas, senti-me como o primeiro eu sentiria-se: na batalha, de pé. À noite, o monstro voltou a ter fome e pôs-se a comer-me de dentro pra fora novamente. É triste... prefiro não ter razão. Mas é sempre assim ou pelo menos assim sempre tem sido. Por falta de poder voar como os outros pássaros, acabo erroneamente entrando em um turbilhão desnecessário. Parece que sou eu, mas não sou. Nessas horas passo longe de mim. O que me sobra aqui não é capaz de me levar aonde  devo e sem opções acaba fugindo também. No fim, quando retorno-me, estou vazio. Estou pobre. É triste... prefiro não ter razão. Eu estive lá, estive perto. Consegui segurar-me aqui dentro o máximo que pude, até que enfim tive a oportunidade de ver o ET em atividade: após o show, assisti de camarote o dito monstro à deglutir-me. nunca tinha sentido isso antes, a sensação de sua sanidade beirar a loucura à ponto de você ser plenamente capaz de reconhecer que está louco e ainda assim permanecer no estado de auto-consumo. Foi assim. No fim das contas a confirmação bruta que não é capaz de mudar absolutamente nada: estou louco! E não de uma forma boa. Já estive louco antes, de formas boas. Sei como é. Dessa vez, não é assim. É triste... prefiro não ter razão.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Garoto de Programa

boolean vini;
int loop;

for (loop = 0, loop != , loop++);
       if (vini == true)
                vini = false;
      else
                vini = true;


terça-feira, 5 de abril de 2011

Os Vagalumes

Os vagalumes – os invejo
e bem aqui mostro o porquê:
não os precisam nem ostentam
as riquezas e os perfumes,
desprezando o véu e o tempo,
as empresas e os volumes
e por destreza que se enfeitam
os invejo – os vagalumes.
E se no mato falta estrada
é só voar para se ter;
E se o asfalto é uma charada
qualquer cantar vai resolver;
E se na vida falta nada
Então - que bom! – é só se ser;
E se deténs uma sacada,
O mundo inteiro o pode ver.
Dos vagalumes – os invejo
principalmente o anoitecer,
porque se a noite está apagada
de vagalume, uma manada
desde o princípio à madrugada
próprias estrelas podem ser.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Astronauta II

Encontro-me ao meio
em um anseio
- insaciável -
e assim permeio
um devaneio,
solitário

Nesse meu pequeno mundo
mudo, giro e acabo mudo
incluo o sonho de criança
- vendo toda a esperança -
o meu passeio
imaginário

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Astronauta


Mesmo que por nobre esteio,
a ilusão do vôo
faz de mim um falso alarde,
faz-me réu

Falso crime entristece
a criança que aqui vaga
mesmo que por nobre esteio,
o devaneio
de tocar o céu

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Contos de Draumur

Quando a gente era criança, dava pra brincar na rua. Eu nunca gostei de soltar pipa e minhas habilidades com peões eram muito limitadas, mas até arriscava ter uns Tazzos e jogar bolinhas de gude - as fubecas, em alguns estados. Tive uma breve coleção de cards, muito embora eu já fosse um pouco velho para eles, mas era bom tê-los por perto, principalmente para esnobar aquele seu colega chato, porque vocẽ tinha o card dourado e ele não, assim como se faz hoje com os celulares de última geração... Dava segurança! Jamais cheguei a completar um álbum de figurinhas, mas sempre tive os meus. Na realidade, jamais cheguei a completar qualquer página, porque em pouco tempo eles já perdiam a graça e/ou ficavam velhos, ultrapassados, tal como acontece com o Windows e o Playstation. Era então o momento certo de comprar outro.

Jogar bola, eu já joguei. Muita! Nunca fui bom, confesso, mas a turma era legal e a gente adorava. Nosso futebol era frequente, primeiramente no campinho de barro, na rua de baixo. E acredite, era de barro mesmo. E depois, com a evolução do vilarejo, era na enorme quadra coberta da escola - que contava com um piso de concreto resinado e traves de verdade, nada de madeira ou pau. E as redes no gol... tão práticas! Era lá que o futebol arte acontecia. Mas o amor pela bola foi se transferindo gradativamente para as garotas, que amadureceram rápido, muito rápido, poxa. A pressão era grande.

Mas o que eu gostava mesmo, era do guaraná Brahma. Tão gasoso e doce que fazia qualquer um sentar e saborear gole por gole. Nunca me esqueço do dia em que o a Dora, dona do bar na esquina, nos deu uma garrafa do Brahma de graça. De graça! Dá pra acreditar? Claro que éramos uns 20 moleques, todos sedentos depois do longo esporte, e a garrafa, coitada, não durou 1 minuto. Mas nossos pequenos e repartidos goles eram intensos e a felicidade foi enorme. Mas um dia a fabricação do Brahma acabou. Opção da fábrica que privilegiara então, apenas a cerveja. Eu até gosto de cerveja. Evoluí?

Pelo menos, minha turminha atual não liga mais pro Brahma. Nem pra Cards ou fubeca; Muito pouco, se discute o futebol. Agora a bebida evoluiu – como tudo que “evolui” - para a Vodka! É batida de pêssego com Vodka, Coca-Cola com Vodka, Internet com Vodka, automóveis com Vodka e até Vodka com Vodka! Eu não suporto. Prefiro Vit’s Limão ou suco de maracujá, natural. Vai ver eu fiquei, pra trás... vai ver, todos evoluíram.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Pseudo-parte III - Quando nós éramos reis

Lá na lua, onde morei, não tinha eletricidade. Mas, - claro! - também não havia nada escuro: ninguém podia dizer que não existia luz. Muito menos se dizia que faltava energia! Em uma pequena província lunar, no território Draumur, fui-me rei. Todos éramos. Quando se vive na lua, és rei por essência. Tens o poder. No planeta Terra, ou como visto, o planeta dos olhos de sangue, a definição de poder é um tanto tortuosa, fria. Gélida, pra dizer a verdade. Na lua, poder é uma coisa quente, mesmo quando nosso corpo celeste encontra-se distante do sol. Mas a questão aqui era a luz: veio o homem branco e trouxe a luz artificial. Ou pelo menos tentou, mas a física não permitia e a queda de energia era constante. Então eles foram embora.

Quando a luz acabava, era hora de alegria. A estrela vizinha, enorme, iluminava um miúdo coração e, por conta dela, figuras nas crateras eram desenhadas. Quando a luz acabava, o céu estava pronto para o show: Os cometas, vívidos, brincavam de ser refletores e a lua, portanto, tinha o poder de brilhar mais do que o sol! Os homens apenas usavam o termo 'a luz acabou', quando na realidade esse era o exato momento em que ela começava.

Hoje não sou rei. Sou homem. Portanto, dono de um poder gélido ou ao menos, obrigado a buscá-lo. Quando falta-me luz falsa, é como se faltasse-me luz de alma. Sinto-me mal. Sinto-me escuro. Sinto falta de vida. Sinto falta de casa. Quero voltar a ser rei, lá em Draumur. Porque lá, não temos mais poder do que ninguém e nem sequer o queremos ter. Lá, nosso poder é quente, vitalício e comum à todos!

***

Quando nós éramos reis, puxávamos tudo da tomada. Os homens pensavam que era a física, mas na realidade éramos nós quem eliminávamos a falsa luz. Hei-me-de ser rei novamente! Devolvo-te, humanidade, os olhos de sangue que jamais me serviram.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Quase parte II - E o que vem depois?

Eu fui. Vi de perto. Era uma mistura de 'sorrisos-máscara' com um pout-pourri 'lamento/vazio/fracasso'. Não sou ator, todos sabem. Não sei representar direito nem o que de fato sinto intrínseco por dentro de mim, pior ainda me é demonstrar o que não me cabe! Ainda mais com uma platéia tão grande e cativa, que em realidade apesar de estarem todos ali à me olhar, ninguém podia me ver. Dizem que, quando o som ecoa como foguetes, batendo e voltando por todas as paredes, as pessoas se sentem libertas e por tal agem como agem. Dizem que são capazes de sair de seus estados, de viajar, de ser o que querem ser. Mas não sou assim. Não quero ser nada mais, quero ser o que sou. Quando o hora tarda e as anomalias surgem, não apenas nunca saio de mim, como contrario aos atos, entro-me. Aprofundo-me. Escondo-me em mim. E não preciso que ninguém me diga que sou louco, não preciso que ninguém me diga que estou errado. É fácil notar que há algo incomum comigo, quando você percebe que todas as demais pessoas do mundo não são como sou. Por tal, sinto-me vazio nalgumas vezes. Por outras, tenho-me vergonha. Sei que não sou desse mundo. Sei que sou de longe, nos confins do que existe ou do que não existe. Tanto faz o teor de existência do que sou, venho dos confins e esse é o fato. Mas acredite: busco respostas. Ciento-me que há-me grande parcela de auto-psicanálise mal resolvida e trabalhando nisso, dedico horas dos meus planos a vagar em horizontes, procurando por mim. Às vezes, o corpo se fecha para balanço e - leia o que diz o aviso! - minha senhora, meu senhor, desculpe-me pelo transtorno, mas estou em reforma para melhor atendê-lo. Sei que vou achar o caminho de casa, mas nesse processo, temo que descobertas vivas podem confundir a lógica que, muito francamente, quase nunca tem lógica. Ou talvez eu, que sempre fui crido de ser uma pessoa extremamente lógica, na realidade criei minha própria lógica e por isso sou o único que a defendeu em todos esses anos. Lendo Frankenstein você percebe que muitas vezes apenas o criador pode compreender totalmente a criatura. Ou mais digo, nem o criador que sou compreende por completo o bicho que criei... * ...Na ocasião, ao meu redor, notei o monstro. Era como se eu estivesse em baixo da cama, junto dele. Nessa aventura, lado ao pó e ao lanche abandonado, encontrei algumas respostas. O pobre monstro - tadinho, tadinho! - é um ser mal compreendido. Mal resolvido. É feio, mas é bom. Pena que ninguém o enxerga. Eu mesmo sempre tive medo de por os pés no chão, acreditava que o monstro ia me pegar um dia. Mas ele não quer me pegar, ele quer se esconder de mim! Monstro de baixo da cama, aqui vai uma mensagem pra você: "não o temo. Compreendo-o. Vamos sair qualquer dia desses, tomar um açaí?!" Seria mesmo muito legal trazer esse monstro para o meu mundo. Eu ganharia alguma companhia a mais, algumas horas de diversão. Porque nesse outro mundo o qual sou obrigado a viver, às vezes, no palco, consigo me sentir completo, graças àquela artista de bem! Mas, sinto: consigo ser-me certo apenas quando as cortinas estão fechadas. Ao início do primeiro ato, sinto que ser-me não basta... Nesse mundo de cães e gatos, ser-te nunca basta! É preciso ser-se além! Você pode? Eu não posso. Sou. Apenas. Sou. E quer saber o que me chateia neste campo de gafanhotos enfurecidos? Sou formiga.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Breve parte I - Do nada ao lugar nenhum!

Eu sou meio Geek, aliás estou estudando pra isso. Vai ser legal, vou ter meu diploma de Geek, entregue das mãos de um Super-Geek, assinado pelos mais consagrados Geeks da região. Gosto de músicas deprê de caráter pseudo-crítico e introspectivo, que vasculham nos interiores, respostas pro exteriores. Músicas assim são um tanto raras... Quantos músicos se preocupam com as relações 'pessoa/universo' e 'eu/eu' ao mesmo tempo? A grande maioria de músicas que circulam por aí afora se propõem apenas falar das vagas relações de boys e girls, o que muitas vezes se torna chato, vazio e extremamente midiático. Não estou dizendo que sou contra canções sobre boys e girls, apenas acho que para fê-las de modo a não parecer-me piegas ou desnecessárias, tem que ser realmente um músico da linha mais TOP-FODA, compreende? Dos Gilmours ao avante! No entanto, mesmo com a seca de boa música que vivemos, graças a essa coisa de globalização e tudo mais, posso contar com uma base bem sólida de cerca de 40 Giga Bytes só de músicas deprê de caráter pseudo-crítico e introspectivo, que vasculham nos interiores, respostas pro exteriores. Enfim, o que eu realmente queria dizer é que eu não tenho a menor ideia do que estou dizendo. Talvez esse texto seja puramente uma abstinência de açaí. Uma crise. Pura mente. Pura. Mente. Sou viciado em Açaí. Você pode me oferecer um pouco a qualquer hora do dia ou - indo além - da existencia; Não surpreenda-se se eu aceitar e devorar em segundos. É da minha natureza, uma natureza puramente açaítica. Acho que eu bem poderia até ser um índiozinho da amazônia, se não por ventura dos anjos tivesse-me nascido por essas bandas cheias de prédios, carros e mais prédios. E computadores! Tais como este que vos escrevo. Aliás, estou estudando pra ser Geek, já disse isso? Talvez faltou-me dizer, mas vou ser um geekólogo.