sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Não Adie A Viagem

O barulho das ambulâncias lá fora, as notícias atômicas e repetitivas nos jornais, os elevadores quebrados, os emails pra responder, os chamados que atendemos, o pedido de cada pedinte perdido que atravessamos nas ruas, o trânsito que deita nas vias e deleita seus graves acidentes em nós, os sonhos de consumo inalcançáveis, os furtos e estupros sociais imperdoáveis, as febres coloridas e incolores, as leis estúpidas, os impostos bandidos, as ideologias vazias, a proliferação das dores...

As viagens que sequer foram perdidas porque NUNCA aconteceram. Porque não temos mais tempo, não temos mais dinheiro, não temos mais saúde, não temos mais companhia, não temos mais a energia que deixamos esvair. Então a gente adia.

MAS PUTA MERDA, como isso está errado!

Não podemos nos cansar com outras dores que não são as nossas, esconder o nosso luto atrás de lutas que não podemos lutar. Não podemos nos deixar cansar literalmente, do pulmão, do coração, da mente que insistentemente mente pra nós mesmos, como se eu tivéssemos pela frente tantas adversidades que não temos.

Bolsos vazios e malas vazias, sim, mas a vida está repleta das felicidades mais nobres. Estamos cegos de tão acostumados e as vezes nem as percebemos. Bolsos vazios e malas vazias, sim, mas uma casa cheia de pessoas maravilhosas, de comidas deliciosas e um lindo piano no hall. Não que as dores não sejam reais, mas por mais que não entendemos o adeus, as chegadas e partidas devem acontecer. E não há o menor problema em chorar por isso, desde que tenhamos conosco o nobre compromisso de nos permitir também partir e também chegar.

Todas as viagens PRECISAM acontecer, mesmo aquelas só de ida, mesmo quando as malas estão vazias... Com o coração preenchido, nenhuma viagem será perdida.

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