quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Alísio

Me disseram que a vida é um sopro.
Seco, quente no início, gelado do fim.
Me disseram e desde então,
busco um vento mais forte pra mim.

Desde que me disseram
que a vida é um sopro
espero encontrar um túnel oco,
um corredor,
uma janela,
um moinho,
um campo de lavanda,
qualquer elemento terreno
que prolonge a viagem e o tempo
do ar que me sai de dentro,
do meio dos meus confins.

Desde que soube
do sopro que é a vida,
busco aquele vento encanado
que se alimenta de si mesmo
pra se manter avoado por aí.

Me disseram que a vida é um sopro
e desde então me arrebento
pra emplacar as rajadas mais rígidas
dos pulmões que não tenho,
arrancar do diafragma que não canta
a potência dolorida
que firma e afirma
meu empenho de vento.

E eu sei que não disseram só pra mim.
Disseram pra você também, enfim.
Sabes que a vida é um sopro
tanto quanto eu
e possivelmente
se nasceu fraco dos pulmões
como a maioria,
se esforça com a tua sangria
pra também prolongar
o sopro que é tua vida.

Mas eu cansei e no cansaço,
sem querer,
descobri um caminho mais fácil.
Vou dizer:

Já que a vida é um sopro,
não mais me importarei
com o esticar desse fio,
apenas, o quanto possível,
quero fazer dessa vida
um doce e afinado assobio.

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