sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A Lua Tem Medo do Escuro

Já não me cabes mais na noite.

Noutro corte que detenho
ou noutra fonte dos meus sonhos
já não cabes mais a fortaleza
que sempre me protegera,
ano após ano,
do medo da penumbra.

Quando eu era mais efebo
via em ti um bom refúgio.
És a luz que guia as ruas
do infinito e do profundo;
és a lua em meu viver
no meu olhar e no meu mundo.

Distante, num platonismo cego
iluminaras, mesmo sem saber,
todo pesadelo encobrido por um ego
ferido, calado, amordaçado...
iluminaras meu medo do escuro
meu segredo mais puro
minha fuga de mim mesmo
pra qualquer lugar além do muro.

Hoje, lua, te conheço!
Em teu solo há me deleito
e em teu peito
meu ouvido encontrara medo,
talvez um outro, talvez o mesmo
que em mim por muito porfiara.

...Nobre luz, iluminando cada canto das cidades;
Teto dos sem teto
nas ruas da amargura, como eu.
Adotara-me como mais um sonho apanhado,
filtrado em uma cama qualquer.
Hoje, lua, te conheço!
e mesmo sendo-te a rainha dessa noite
vejo seus olhos radiantes com a luz do dia,
numa parte do (uni)verso que antes jamais veria.
És a lua e tens o mesmo medo da penumbra
que me encontra na calada das verdades.

Te conheço, lua, hoje!
Sou eclipse, meu prazer!
Deixe a terra acreditar
que algum mal vim te fazer.
Que tua luz vim te roubar,
que por detrás de mim vim te esconder.
Pois existe uma verdade
que povo algum poderá ver:
venho aos poucos, na surdina
refletir o que me der,
uso o meu corpo e tua retina
pra tua luz te devolver.