quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Universo Avesso

Abri os olhos pela primeira vez. Em dois ou três segundos tive a consciência de que havia despertado. Minha mente parecia vagar por aí, sem muita sagacidade, apenas mantendo-se ocupada, brincando com o vazio. Tentei levantar-me em um primeiro momento e dei-me conta de que estava fraco. Minha cabeça parecia pesada, meus braços pareciam rígidos. Por um instante, resolvi adiar o esforço físico e parti um pouco para o mental. Foi quando fui pego por uma aterrorizante surpresa: eu não consegui me lembrar do que acontecera na noite anterior. Olhei ao meu redor, tudo parecia diferente e fora do lugar. Luzes piscavam nas paredes vermelhas, garrafas de cerveja no chão. A guitarra estava suja, fiel escudeira de outrora encostada em um canto qualquer. Como pude deixar que alguém fizesse isso com ela?! Era como se aquele aposento não fosse o meu, embora estruturalmente eu fosse plenamente capaz de reconhecê-lo. Quando finalmente pude me levantar, enfrentando a gravidade assombrosa causada pela dor de cabeça, notei que vestia apenas uma cueca – que por sinal não me lembrava de ter comprado. Modelo bem diferente das que eu estava acostumado a usar, o que a princípio causou-me algum espanto, mas no fim das contas gostei muito dela! Eu poderia cortar esta parte do texto, mas não o farei. Sai do meu quarto e antes de chegar ao banheiro, obrigatoriamente tive que passar pela cozinha. Lá, quase despenquei ao chão quando vi que algo definitivamente estranho estava realmente acontecendo. Todos os móveis eram diferentes. Posições, formas, tamanhos. Tudo fora do lugar – ou melhor, em um novo lugar. O cheiro de madeira nova ainda exalava... Aquilo também me agradara, embora a ideia de todos os móveis anteriores terem sumido misteriosamente não me cansaram a voracidade do que me consumia, o medo de que eu estava perdidamente louco por ali. Avancei com passos de um bebê aprendendo a caminhar, observando com um pouco mais de atenção todas aquelas coisas que não pareciam ser minhas. Passei desse estágio, ainda incrédulo. Quando cheguei ao banheiro, outro susto quase que inimaginável: minha barba... Estava enorme! Meu cabelo, ríspido, violentamente grande. Olhos cansados, murchos. Toquei minha pele, meus pelos, meu lábio. Olhar atento sinuosamente se perdendo em meu próprio reflexo. Aquele homem, machucado pela vida, era realmente eu.  “Por quanto tempo dormi?!” latente pergunta se fazia e refazia dentro de mim. “Por quanto tempo sonhei?!”. Foi quando, distante, o sino de um aparelho telefônico soou. A música que o mesmo reproduzia, me era bastante agradável, mesmo que parecesse coisa nova para minha discoteca. Assustei-me quando notei que aquele som corria em meu próprio celular. Aquela canção era de fato das minhas! Mas antes que pudera atentar-me melhor à isso, as intermináveis surpresas do dia continuavam. No visor do aparelho, li um nome, mesmo sendo um tanto familiar, como se fosse pela primeira vez. Eu não sabia exatamente de quem se tratava, mas mesmo com certo receio do que viria depois, atendi. Não disse nada, apenas aguardei pela fala do outro lado da linha:
- Nem abri meus olhos ainda, mas meus ouvidos já estão inquietos esperando pela sua voz.

Era você. Libertando-me do coma que vivi, sempre acordado.


Eu sei que nunca havia tocado nesse assunto antes. Não me sinto bem quando penso no buraco que existe na linha do tempo da minha vida. Mas penso que você merece saber exatamente como foi o dia em que abri os olhos pela primeira vez.

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