domingo, 12 de agosto de 2012

O Paletó


Sou das antigas. Sou saudosista. Sou um cidadão muito muito nostálgico. Vivi pouco por enquanto, assim como todos nós vivemos, sempre pouco, mas tenho em mim uma alma – pra não dizer velha – um tanto quanto antiquada, um tanto quanto antiquarista. Volta e meia, sinto falta doutros dias que vivi na infância e, em casos supremos posso ir muito além: tenho saudades da época que não vi ou vivi, da infância dos meus pais, da infância dos meus avós, graças às poucas e pequenas partes deles que ficaram em mim e que de mim jamais deixarão de habitar.

Sinto falta das bandas de atitude, sinto falta das temáticas importantes, sinto falta dos carros que alimentavam seus motores às custas do carburador. Sinto falta dos Mamonas, do guaraná Brhama retornável e dos masters tazzos. Tenho saudade dos anos 90, tenho saudade dos anos 80, tenho saudade dos anos 70, do Pink Floyd, das roupas coloridas e dos movimentos sociais. Queria voltar a ter carrinhos, voltar a ter 7 anos, voltar a ter sonhos e planos fantásticos em um mundo onde golfinhos voam e esbarram nas ideias soltas pelo ar. Queria ter uma bicicleta para ir no Bar da Dora, na esquina, comprar 10 moranguetes com uma nota de um real.

Não posso mais pintar as paredes e o chão da casa com giz de cera, simplesmente porque não tenho mais idade para isso. Não posso mais correr e simplesmente correr, descoordenadamente, sem parecer louco. Não posso mais nadar pelado sem ser preso, não posso mais assistir desenhos sem que me achem muito besta. 

Sou das antigas, saudosista, nostálgico, antiquado. Tenho videogames velhos, um carro clássico, Lps originais. Meu violão já tem mais de uma década, minha escrivaninha tem pelo menos meio século e o teto que me abriga está próximo do centenário. Tenho muitas roupinhas xadrezes, uma boina e um chapéu. Tenho também um paletó, desses que gente fina portava à beira dos anos 40, sabe? Bolso interno e tudo mais. Gosto muito desse traje. Ele me consola sempre que me lembro que toda essa modernidade ter me alcançou, sempre que entristeço-me ao notar que sou escravo desta máquina qual escrevo. Noutra noite, por exemplo, guardei meu celular no bolso interno do meu terno, do lado esquerdo, colado ao peito. Quando você me ligou, pude sentir meu coração vibrar.

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